# Cidade **Published by:** [Uma imagem, mil palavras](https://paragraph.com/@milpalavras/) **Published on:** 2025-02-17 **URL:** https://paragraph.com/@milpalavras/cidade ## Content As árvores escondem a cidade que alcança o horizonte visível. Se uma imagem vale mil palavras, esta poderia valer facilmente mil edifícios, na densidade aglomerada. Visto de longe, o cenário possui uma beleza estrutural, quase abstrata. No entanto, a realidade é que parece um calabouço, uma armadilha que nos puxa cada vez mais fundo em seu cotidiano traiçoeiro. Cada dia que passa torna-se mais difícil escapar. Uma cidade como essa oferece tudo: entretenimento, oportunidades, distrações, e a chance de vagar anonimamente. Contudo, ela também exige e consome tudo. Sentir-se parte dessa metrópole grandiosa pode dar um senso de grandiosidade. Aqui, me sinto como um gladiador na arena, competindo incessantemente. No entanto, é uma competição desigual, onde alguns jogam enquanto outros controlam as regras. Buscamos uma vitória invisível, um objetivo inatingível, um mecanismo intrincado da vida urbana. Um avião sobe no horizonte, fora do alcance da foto. Caminhar em uma floresta de concreto como as grandes cidades revela muitos detalhes invisíveis ao passar de carro ou bicicleta. Esses pequenos detalhes conferem uma identidade única à grande entidade coletiva que a cidade é. A sujeira nas ruas, lixeiras cheias ou vazias, praças com ou sem folhas, são sinais reveladores da cultura de um povo que reclama alto, mas trabalha pouco em silêncio. A cidade que nunca dorme também nunca acorda. Ela nasce já desperta, vivendo uma insônia perpétua, incapaz de encontrar descanso. Mais do que trabalhar para viver, precisamos trabalhar para nos sentir vivos. Curiosamente, em um mundo como este, acabamos fazendo coisas que não nos fazem sentir mais vivos. Procuramos trabalhos para fechar o ciclo que a cidade nos impõe. Viver perto do trabalho é caro. Para morar perto, precisamos de um emprego que ofereça grande retorno financeiro. Mas, ao gastar mais para viver, somos contaminados por um ambiente onde casas bonitas, apartamentos decorados e carros novos se tornam a norma. Caminhando pelas ruas, essas coisas começam a parecer essenciais. Será que eu não mereço isso também? Esse desejo de mais traz uma esperança, mas sem reflexão sobre o seu verdadeiro significado. Vale mais a pena ganhar 100 gastando 80 ou ganhar 40 gastando 20? O resultado líquido é o mesmo, mas o esforço, as noites mal dormidas e o estresse são diferentes. Existe outra alternativa para este ciclo incessante? Quanto mais temos, mais precisamos, mas ainda não temos o que realmente precisamos. Então, o que realmente precisamos? Sinto que estou ecoando reflexões já feitas, mas aqui está mais um ponto de dados para a formação de opiniões coletivas. Alguém que quer desistir, abrir mão e sair deste jogo. Buscar um lugar onde as pessoas dão bom dia nos elevadores, ou melhor, onde não há elevadores. Onde acordamos no térreo de nossa casa e os primeiros passos são na grama gelada, ainda úmida do orvalho da noite. Onde os únicos sons da madrugada são os latidos de cães assustados, e não escapamentos de motos ou ônibus correndo para cumprir horários e finalmente descansar seus motores por algumas horas. Quando decidimos que empilhar casas era uma boa ideia? Provavelmente, não foi uma escolha, mas uma necessidade. Ainda me pergunto por quê. Será que precisávamos preservar as áreas ao redor dos vilarejos para plantar? Ou, por não conseguirmos nos transportar eficientemente na antiguidade, começamos a morar o mais próximo possível uns dos outros? Será que foram as relações familiares? Ou as grandes porções de terra tinham donos que não permitiam a expansão, forçando as pessoas a se amontoarem? Parece que quase nenhuma dessas alternativas é válida hoje. Nossas áreas agricultáveis produzem alimento em excesso. Desenvolvemos sistemas de transporte eficientes e métodos de trabalho remoto que eliminam a necessidade de deslocamento diário. Poderíamos planejar vias e transportes coletivos mais eficientes que levassem milhares de pessoas de pontos distantes para onde precisam ir. Parece que seguimos uma sina sem entender o porquê. Fazer algo sem compreender a razão não é necessariamente errado, mas não consigo acreditar que seja certo agir sem pensar. Se este texto soa melancólico e crítico, é porque ele é. Não tenho intenção de destacar os aspectos positivos das grandes metrópoles aqui. Eles existem? Provavelmente sim, sob alguma perspectiva ou momentaneamente. Acredito que esse coletivo excessivo desperte algumas características interessantes em nós, em certos momentos. Seja a própria competição, seja, no pior dos casos, a capacidade de sobrevivência. Isso me faz pensar, ao olhar uma parede de mais de 150 metros de puro vidro e um pouco de aço, ou talvez aço e um pouco de vidro, quando foi que perdemos a oportunidade de criar, construir, plantar e fabricar, e passamos a viver prestando serviços uns aos outros? De certa forma, isso soa um pouco feudal, no sentido de ser tão antigo quanto a própria humanidade. Mas será que não deveríamos caminhar ou construir em direção a isso? Não é essa a verdadeira liberdade? A liberdade de fazer dinheiro, não apenas ganhá-lo? Penso agora sob a ótica do empreendedor e me imagino sendo lançado, como em um programa de TV, em qualquer lugar, com o objetivo de colocar um negócio de pé. Fico orgulhoso de que minha primeira reação interna é: legal, estou louco por encarar esse desafio. Saber que, independentemente de onde eu caia, pare ou vá, com observação da realidade, curiosidade e vontade de criar riqueza e independência, posso criar meu sustento. E isso, talvez, é o que gera um senso de autonomia que me desprende daqui. Muitas pessoas, tenho certeza, seguiram o caminho da formação avançada, construíram suas especialidades, ouviram dos pais que precisavam de um diploma para ser alguém na vida. Para elas, a cidade é o ambiente delas. Elas são as habilidades delas e essas habilidades só valem aqui. É como largar um peixe no deserto ou um pinguim na floresta. Chega um ponto em que você não consegue se ver como indivíduo fora daquele contexto específico. Como pode algo tão frio ser tão confortável para tantas pessoas? Me restam poucas palavras… me sinto apertado nesse texto, assim como as árvores que resistem entre o concreto. ## Publication Information - [Uma imagem, mil palavras](https://paragraph.com/@milpalavras/): Publication homepage - [All Posts](https://paragraph.com/@milpalavras/): More posts from this publication - [RSS Feed](https://api.paragraph.com/blogs/rss/@milpalavras): Subscribe to updates ## Optional - [Collect as NFT](https://paragraph.com/@milpalavras/cidade): Support the author by collecting this post - [View Collectors](https://paragraph.com/@milpalavras/cidade/collectors): See who has collected this post