# Madrugada

By [Uma imagem, mil palavras](https://paragraph.com/@milpalavras) · 2025-02-17

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Ainda é noite, mas não por muito tempo. As primeiras horas do dia são mais tensas que as últimas; o silêncio que o alvorecer traz é único. O crepúsculo é um rito que na cidade perdeu seu romance, seja pelo excesso de luzes, seja pelo excesso de barulhos. A orquídea rosa anima esse momento, dando cor ao monocromático verde das outras plantas, plantas essas escolhidas a dedo para viverem (sobreviverem?) em um apartamento. “Se elas não florescem, floresço eu” pareço ouvir a orquídea dizer. A pequena térmica de café conta a história dessas manhãs. Nem tampouco que seja apenas uma xícara, nem tanto que esteja frio no retorno: a precisão da dose certa mostra a meticulosidade de um ritual de longa data. E são elas, as luvas, que, contrastando com a madeira da mesa, dão a dica do que vem a seguir.

São diversos os elementos que exigem que o ciclismo seja um amigo das madrugadas — não do início delas, mas do seu fim. Aquelas pessoas que não tornaram isso sua profissão, precisam, evidentemente, trabalhar. Por mais que o trabalho hoje se dê em mil formatos distintos, quem trabalha com outras pessoas será eventualmente levado ao mínimo múltiplo comum da sociedade, das oito as dezoito. Todavia, aquele feliz sujeito que trabalha apenas consigo mesmo também é, em cima de duas rodas, um amigo do prelúdio do dia que está nascendo. Há o fator trânsito. No trânsito, há uma briga eterna entre quem está livre para ir e vir apenas utilizando a energia das próprias pernas e quem está preso numa gaiola de aço, plástico e couro consumindo a energia das pernas dos dinossauros. Prensadas por milhões de anos nas profundezas do solo, claro. A briga é unilateral — quem está no meio da liturgia esportiva não quer brigar com ninguém. A lógica, então, é: quando não pode vencê-lo, afaste-se dele.

Contudo, se parece que o casamento entre o ciclismo e a alvorada se dá por razões terceiras, eu me expressei mal. Digo, ainda não expressei o suficiente. Fatores práticos são importantes, mas eles não são todos os fatores em nenhuma análise. Há sempre o fator psicológico, e talvez psicológico não seja a palavra certa aqui. Conexão. Sim, talvez conexão. Muitos dizem (muitas tias, sempre penso em tias falando isso) “_acorda para vida, guri!_”. Acordar é um verbo poderoso, ou que se tornou poderoso porque a maioria de nós dorme, ainda que após ter levantado da cama. Toda vez que o som do câmbio trocando as marchas se mistura com o primeiro canto dos pássaros do dia, ali tem uma conexão. Uma conexão entre o dia e a noite, entre o escuro e o claro, entre quem estava dormindo, mas agora desperta.

Todos os esportes podem ser os despertadores de uma consciência maior. Talvez não despertadores, pois algo em você já despertou uma vez que você está ali. Catalisadores; eles são o ritual de fazer o café para avisar o corpo e a mente que um novo dia chegou. Talvez não só os esportes, talvez qualquer atividade, porém me falta experiência prática para falar de outros esportes ou de outras atividades. Portanto, falarei do ciclismo. Acredito que o poder do ciclismo está em ser simples, mas não fácil. Certamente alguém lendo que “o ciclismo é simples” levantou as sobrancelhas, surpreso, ou balançou a cabeça, desacreditado.

Não precisamos discutir que colocar um tênis, um calção e uma camiseta é mais simples que uma sapatilha (e o pedal na qual ela se prende), um bretelle (há quem nem saiba o que é isso), uma camiseta _de ciclismo_ (nada de folgas!), um capacete, um óculos, uma luva, um par de garrafas e, claro, uma bicicleta. Ah, esqueci o jogo de ferramentas e reparos — que muitos amigos esquecem na realidade mesmo. Correr é mais simples que ciclismo, não há dúvidas. Todavia, o que é exageradamente simples não nos transforma, não gera mudança. Está ali, pronto, acessível.

O ciclismo é uma ótima ferramenta para quem dúvida de si. Para quem dúvida da sua capacidade de se comprometer com algo. Porque, apesar da barreira de entrada maior que muitos outros esportes, o ciclismo entrega muito. Ele é aquela aplicação que retorna muitas vezes o capital investido. Ele é rotina, método e números, assim como é mudança, balbúrdia e sentimento. Quando se quer ser sozinho, ele o é da maneira mais privada e íntima possível. Quando se quer ser coletivo, ele entrega o pelotão em toda sua força, dinâmica e velocidade.

O ciclismo pode ser aventura pelo desconhecido assim como pode ser aventura pelo conhecido… há algo de instigante pensar que com nossa própria força não há rua a centenas de quilômetros que não se possa chegar antes do entardecer.

Precisamos desconfiar daquilo que é velho e permanece por aqui. A manteiga, o azeite, o vinho. As roupas de algodão e de linho, os ternos bem cortados e os vestidos bem longos. Os clichês que carregam a sabedoria de gerações. A chance de algo que existe há tempos continuar existindo é imensa, existe um nome para esse efeito, que é… irrelevante para esse texto. O importante é que o ciclismo moldou homens e mulheres por treze décadas. Na guerra foi instrumento de paz e, na paz, é instrumento de medição de força, coragem e caráter. Nada que é tão grande e tão importante pode o ser por nada. É cruzando a rebentação do “dá muito trabalho” para o “estou louco que chegue sábado!” que o ciclismo catalisa as transformações em nós.

Sim, porque ao final do dia — ou melhor, no início dele — andar de bicicleta não é a profissão da maior parte de nós. Contudo, é através dele que entendemos conceitos básicos que tornam nossa vida melhor; nos tornam cônjuges e pais melhores, amigos melhores. Conceitos como não superestimar o curto prazo, nem subestimar o longo; e que a disciplina é a irmã da consistência; e que liberdade é saber dizer não; e que Deus ajuda quem cedo madruga.

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*Originally published on [Uma imagem, mil palavras](https://paragraph.com/@milpalavras/madrugada)*
