# A impulsividade de Pedro

*e como ela não serve para nada*

By [Oh No I've Said Too Much](https://paragraph.com/@mrcl) · 2023-04-01

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Fizeram a seguinte pergunta a uma senhora muito religiosa: Se você é cristã porque vai votar no Bolsonaro? Mesmo sabendo que essa pergunta foi com intuito de intimidar e afrontar, a senhora respondeu sem perder a calma: "Porque prefiro Pedro que era impulsivo, falava umas besteiras e andava armado com uma espada, do que Judas com seu discurso manso e mentiroso de ajudar os pobres, mas era ladrão e traidor".





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Recorrendo somente à minha péssima memória, sem ir conferir na Bíblia, há três episódios em que S. Pedro cede a um arroubo de impulsividade: quando Cristo anuncia sua Paixão, e Pedro, recém elogiado por Jesus, tenta convencê-lo a não repetir o que anunciou; quando corta a orelha de um dos captores de Jesus; e quando o nega três vezes.

Em outras três ocasiões Pedro toma atitudes incomuns, e os resultados são não apenas benéficos, mas também santos: quando ele declara que Cristo é o Messias, quando ele cura um mendigo paralítico nas portas do Templo e quando ele conclui que a visão da mesa com alimentos impuros significa que a salvação de Cristo se destina também aos pagãos e não só aos judeus. Nestas três ocasiões a inspiração veio de Deus e não da sua impulsividade.

Aqueles arroubos não o afastaram de Cristo, mas o resultado deles foi ser chamado de "satanás" quando tentou censurar Jesus; ser, por sua vez, censurado por Cristo quando cortou a orelha do soldado, a ponto de ver sua bobagem sendo desfeita por Cristo, que curou a orelha decepada; e arrepender-se amargamente ao ouvir o canto do galo, que lembrou-o de ter sido avisado por Cristo que faria aquilo (aliás, Cristo disse isto quando, em mais um arroubo, Pedro disse que não abandonaria Jesus, ao que Cristo respondeu com a previsão de que seria negado três vezes).

Essa impulsividade ("satânica", pelo menos em um dos casos) não o impediu de continuar sendo a pedra sobre a qual Cristo constrói a Igreja, o que só serve para mostrar o quanto Cristo é misericordioso e que Pedro aprendeu que a misericórdia é divina e não depende da impulsividade, e que Jesus não precisa que lhe defendam com uma espada.

A famosa e hedionda comparação da impulsividade de Pedro com a de Bolsonaro é horripilante sob todos os aspectos, já que no caso do ex-presidente trata-se de uma impulsividade calculada ([já que dentro de casa ele sabia muito bem se conter](https://www.metropoles.com/colunas/rodrigo-rangel/exclusivo-as-provas-que-ligam-michelle-bolsonaro-a-suspeita-de-caixa-2-no-palacio#:~:text=Bolsonaro%20e%20o%20arrombamento%20da%20adega%20do%20pal%C3%A1cio)), e no caso de Pedro, era genuína, tanto é que ele teve que aprender a controlá-la, pois Cristo não deixaria um [satânico](https://www.bibliaon.com/versiculo/mateus_16_23/) espadachim ficar à frente da sua Igreja.

A impulsividade de Pedro serve apenas como uma amostra de que a impulsividade não leva ninguém ao inferno, bem como não leva a lugar nenhum, mas que precisa ser dominada, se a pessoa quiser se manter ao lado de Cristo. Aliás, a Bíblia serve justamente para isto, saber como nos aproximar de Cristo, e não como uma espécie de guia para justificar o voto em um candidato-Messias (um tipo, aliás, [já mencionado](https://bibliaportugues.com/matthew/24-5.htm) por Cristo na Bíblia).

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*Originally published on [Oh No I've Said Too Much](https://paragraph.com/@mrcl/a-impulsividade-de-pedro)*
