Aprendemos a superlativar sentimentos. Sejam eles agradáveis ou não, alegres ou tristes, construtivos ou destrutivos. Ficamos muito apaixonados ou odiamos, estamos muito alegres ou absolutamente tristes; transitamos à velocidade de um clique entre a empolgação máxima e o famoso “ranço”. As relações de amizade, amorosas, familiares e de trabalho ficam à mercê deste frenesi de extremos. É aí que deixamos escapar a serenidade e a paz que tanto buscamos. O contrário do superlativo não é indiferença: é calma. Porém nos distanciamos dessa calma criando um abismo para tapar o outro, usando um superlativo para compensar o outro; pulamos de galho em galho sem nunca construir nada com consistência. Talvez consideremos que se não for “super” e pra ontem, não serve. Perdemos a rica oportunidade de desfrutar do caminho, de respeitar os processos: queremos pronto, delivery e se possível com entrega grátis. Esquecemos que o amor, em todos os seus formatos, é algo construído, é caminho pavimentado enquanto se anda.
Se é verdade que todo excesso esconde uma falta, talvez a necessidade de colocar todos os sentimentos e sensações no superlativo seja a falta que sentimos de nós mesmos. Nos é ensinado que temos que buscar fora ao invés de (re) conhecermos o que já temos dentro - e que é tão incrível quanto assustador, mas é o que somos, e é lindo demais - aqui cabe o superlativo! Quebrar o padrão aprendido em uma sociedade onde tudo tem que ser a jato, mega visto e celebrado publicamente talvez seja o caminho do reencontro consigo mesmo. E, neste caminho, o principal superlativo deveria ser a coragem.
Coragem de se acolher, de enfrentar nossas sombras e aceitar nossas virtudes- sim, temos muitas mas também aprendemos a “falsa humildade” em prol, mais uma vez, da aceitação externa. Coragem de acolher o outro como é sem esperar dele o que só nós podemos nos dar; celebrar nossa inteireza e a do outro, mesmo estando todos nós perfeitamente em construção. Celebrar a arte do encontro e desfrutar, enfim, a serenidade do sentir . Porque ele, o sentir, foi feito pra ser em paz. E somente onde há paz, a entrega encontra seu lugar e seu sentido.

