Muitos de nós temos vontade de sermos donos de grandes propriedades de terra, de viajar para destinos exóticos e de comer em restaurantes com chefs maravilhosos. Porém, não há uma infinidade de terras disponíveis para todo mundo, nem de gasolina ou de excelentes cozinheiros. Então, como escolher quem terá acesso a todos esses privilégios?
Em nome da justiça e da não descriminação, faria todo sentido escolher métodos como aleatoriedade ou ordem de chegada. Dessa forma, os vendedores de terras, as companhias aéreas e os donos de restaurantes não teriam como descriminar quem seriam seus clientes por nível de educação, de riqueza, cor de pele, religião ou sexualidade, independente do bem ou serviço oferecido. Parece sensato, se e somente se, desconsiderarmos a parte da definição de economia onde é mencionado “recursos escassos”.
No mundo atual o meio que prevalece para definir quem terá acesso a esses privilégios é o sistema capitalista de quem paga mais, e é justamente por isso que habitualmente não temos falta de oferta de produtos. Mas como poderia ser melhor se dessa forma estamos explicitamente excluindo os com menos dinheiro?
Fazendo uma analogia ao exemplo utilizado pelo economista americano, Thomas Sowell, em Economia Básica I, imaginemos um desastre natural como um furacão que acabou de destruir parte de uma cidade: a população toda está sem luz elétrica e aqueles que tiveram suas casas parcialmente destruídas ainda enfrentam problemas como frio e goteiras.
Seria muito comum em uma situação trágica como essa, as pessoas ficarem revoltadas caso comerciantes aumentassem preços de itens como lanternas, cobertores ou baldes. Esses últimos seriam atacados com ofensas como gananciosos, oportunistas, mercenários, etc, já que estariam tentando tirar proveito da necessidade dos afetados pela catástrofe e de suas necessidades. Acontece que aumentar o preço desses itens é justamente a coisa certa a se fazer para que mais pessoas tenham acesso a eles.
Uma família de classe média alta muito provavelmente quando diante dessa situação, compraria mais de uma lanterna, mais cobertores do que o necessário para aquecer cada membro e mais baldes do que goteiras em seus tetos e paredes. Isso não seria o caso se preços fossem cobrados por valores nitidamente maiores do que o habitual.
Se os valores desses três itens aumentaram em, digamos, 3x devido ao furacão, essa mesma família abastada se contentaria em comprar apenas o que realmente precisam - a quantidade mínima de lanternas, de cobertores e de baldes - para que suas necessidades fossem atendidas, já que eles estão cientes de que não fazendo isso, estariam “desperdiçando” muito dinheiro em algo que previa e posteriormente será tido como trivial.
Nessa situação com o aumento dos preços menos itens serão comprados per família, o que se traduz em mais itens no estoque disponíveis para famílias futuras que virão nessa mesma loja, onde no primeiro caso de ordem de chegada ou de aleatoriedade, uma família abastada provavelmente levaria muito mais do que o mínimo, deixando famílias futuras, abastadas ou não, com uma possibilidade zerada de conseguir atender suas necessidades.
Com os preços em valores muito altos, isso se torna atrativo para os comerciantes que não são da região transportarem seus produtos e venderem para os necessitados também, visto que se eles forem os primeiros poderão cobrar valores maiores até que outros em maior quantidade façam o mesmo trazendo o preço para baixo. O lucro dos gananciosos comerciantes é o que traz lanternas, cobertores e baldes para essas regiões em velocidades muito maiores do que a gratuita ajuda humanitária que depende de burocracias e autorizações de pessoas que não tem qualquer incentivo para trabalhar mais do que as oito horas regulares que também têm em situações ordinárias. É o incentivo econômico, do lucro, que traz o que os necessitados precisam.
Como foi dito por Adam Smith, em sua obra A Riqueza das Nações:
“Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse. Dirigimo-nos não à sua humanidade, mas à sua autoestima.”
Não fosse o aumento de preços, os estoques de lanternas, cobertores e baldes logo esgotar-se-ia alcançando menos famílias e pessoas visto que esses itens a preços normais seriam considerados baratos dada a situação, seguindo a lei econômica de que há uma demanda maior por um bem quando seu preço é menor do que o contrário.
Um governo não seguindo essa linha de raciocínio poderia erroneamente com boas intenções sancionar uma lei congelando o preço de produtos essenciais como os anteriormente mencionados. Feito isso não haveria incentivo ou motivo algum para que qualquer comerciante ádvena viesse para a região do desastre trazendo consigo suas mercadorias. O resultado disso seriam prateleiras e estoques vazios com a parte da população afetada esperando de mãos atadas e vazias a aguardada ajuda humanitária.
A livre circulação de preços é necessária não somente em situações extraordinárias mas em inconveniências previsíveis também, como secas em um país que depende da geração de energia vinda de usinas hidrelétricas.
Se uma usina opera em 30% de sua capacidade, um nível alarmante, e não há desincentivo algum para que as pessoas parem de utilizar eletricidade que estão habituadas e passem a economizar, não é questão de se, mas quando um apagão acontecerá. O aumento de preços, no Brasil por meio da mudança de bandeira tarifária, é usado dessa forma justamente para que ninguém fique completamente sem, visto que acertando o bolso do contribuinte é uma maneira muito mais eficaz do que distribuir panfletos pedindo com por favor para que não se ligue o ar-condicionado.
O controle de preços também não é uma medida eficaz, independente de onde ou quando for aplicada. Ao longo da história diversas cidades em todo o mundo tentaram usar esse recurso para controlar a grande escalada de preços dos aluguéis de apartamentos e residências em geral.
As consequências imediatas são maravilhosas: aqueles que já moravam pagando mensalmente o aluguel ficaram felizes, pois não haverá correção no contrato ao fim do mesmo. No entanto, a procura por apartamentos para alugar também sobe nessa situação, pois todos agora querem morar por 10 anos pagando um valor atual que será imutável. Tido todas as residências disponíveis sido alugadas, o futuro não é tão otimista. Sabendo que não poderão corrigir seus aluguéis, independente de qual for a inflação nos anos seguintes, os locadores simplesmente deixam de ver a compra de apartamentos como um investimento lucrativo, pois no longo prazo não compensa. A seguinte consequência, como em um dominó, é a menor construção de novos prédios, já que há uma menor demanda efetiva (capaz de comprar) os apartamentos recém construídos.
”A estrada para o inferno está cheia de boas intenções.”
Uma medida que tinha como intuito inicial tornar moradia acessível para todos, em especial para aqueles em piores condições financeiras, teve como consequência real o fim de construções de novas residências. Isso se torna ainda pior quando acontece em cidades ou regiões em crescimento, como foi o caso de Nova York, Califórnia e Berlim, no passado.
A solução lógica encontrada no sistema capitalista é encontrada novamente nos lucros. Em uma cidade com grande crescimento e grande densidade populacional, onde as moradias ficam cada vez mais caras, é no mesmo problema que se encontra a solução. Com os preços das moradias cada vez maiores, mais pessoas veem o ato de comprar uma casa ou apartamento para então colocá-los para alugar como um investimento. Essa demanda para colocar para alugar é em grande parte o que movimenta a indústria de construção imobiliária, já que os prédios só são construídos onde se espera conseguir vendê-los posteriormente. Os preços se manterão caros até que haja uma oferta de novos prédios grande o suficiente para satisfazer a demanda, que só será possível graças aos investidores que olham para os lucros que conseguirão ao colocar os imóveis para alugar.
Não é coincidência que nos arredores de faculdades e universidades seja extremamente comum encontrar condomínios com diversos prédios. Um casal idoso dificilmente se interessaria em morar perto da agitação dos jovens, dia e noite incluso finais de semanas, mas para os próprios estudantes é extremamente conveniente esse tipo de residência. Como jovens normalmente não tem dinheiro suficiente para comprar ou interesse em se endividar com um financiamento bancário, eles decidem alugar, já que também pretendem viver ali apenas enquanto não obtiverem seus diplomas. No entanto, as construtoras não fazem seu trabalho para alugar seu produto final, elas o fazem para vendê-lo, e esse fim só é possível porque há pessoas interessadas em comprar o imóvel para então ganhar rendimentos por meio do aluguel.
No socialismo de mercado o governo controla grande parte da economia e o que deve ser produzido e enviado para cada lugar. Não há a livre oscilação de preços, como deveria, e o problema se encontra, como dito pelo economista da Escola Austríaca, Ludwig von Mises, no problema do cálculo econômico. Peguemos o exemplo de moradias caras novamente: o estado não tem como saber onde construir e onde não construir residências, onde as pessoas querem morar e onde as pessoas não querem morar. Os preços dos imóveis são a única coisa que nos respondem com precisão isso. Se há muita gente querendo morar em determinada região, prédios serão construídos e as construtoras vão cobrar caro por isso, pois levará o produto final aquele cliente que estiver disposto a pagar mais. Porque as construtoras sabem que vão poder cobrar caro e obter um lucro considerável, isso as estimula como um incentivo e elas constroem mais prédios até que ninguém mais queira morar lá pagando preços altos - até que a oferta se equipare com a demanda. O mesmo vale para o contrário: se as pessoas não querem morar num lugar, as construtoras vão vender por preços menores, já que é melhor vender um prédio por, por exemplo, R$200 mil sendo que custou R$500 mil para ergue-lo, do que simplesmente não vender o mesmo e ficar zerado, com um prejuízo, inevitável, mas que poderia ter sido menor. Sem os preços, não tem como saber onde as pessoas querem morar, a não ser que toda vez que vissem um lugar agradável, respondessem um questionário dizendo porquê gostariam de viver ali (ironia).
O governo não é capaz de atender de forma eficaz a demanda da população não somente no setor imobiliário, como em qualquer setor. Se na economia capitalista o atum custa mais que a tilápia, é porque há mais pessoas querendo o atum do que a tilápia. Isso resulta em um incentivo que para que os donos dos supermercados peçam aos pescadores pescarem mais atum até que haja uma quantidade suficiente dessa espécie de peixe pra satisfazer todos clientes por aquele alto preço - quando a oferta se equiparar com a demanda. Não fosse esse sistema, os que desejam comprar atum teriam de esperar, novamente, pela burocracia que antecede e procede a decisão de um funcionário público que nada ganha por trabalhar horas extras ou encontrar meios mais rápidos para que o atum chegue no supermercado local. Sem os incentivos econômicos, as necessidades nunca são atendidas da forma mais rápida.
Na União Soviética, víamos fotos de pessoas em filas enormes porque quando o governo controla quanto de cada coisa existe em estoque para se vender, a única forma das pessoas conseguirem aquilo, em vez de pagar mais caro quando existe muita demanda, é ficando na fila para pegar antes que acabe. É verdade que em algum momento o governo vai perceber que é preciso pescar mais atum, mas isso vai demorar muito tempo porque além de controlar o preço do atum, eles também estão controlando o preço da tilápia, do salmão, da sardinha, de todas as espécies de peixes possíveis e, ainda pior, de todos os bens possíveis. Não há como humanos analisarem e verificarem com precisão e velocidade que no Maranhão é preciso pescar mais sardinha; que no RS estão faltando de cadeiras; e que os habitantes do Amazonas precisam de tubos de ventilação.
O simples, mas importante, fato de que os preços sobem e descem pela demanda e oferta, faz com que não seja necessário depender de ninguém dizendo o que precisa ser produzido ou deixar de ser produzido. O próprio pescador vê que há mais gente procurando por atum do que ele tem para oferecer, então ele vende para quem quiser pagar mais. Se esse acontecimento continuar, ele passa a dar mais enfoque na sua pesca para o atum. O fato de ele aumentar o preço por esse motivo simplório é o que mantém as coisas funcionando, mesmo que seja um mecanismo simples e que não depende do macro conhecimento de tudo que se passa.
Isso é ainda mais verdade quando paramos para analisar as consequências inesperadas da economia. Para ter uma compreensão melhor do que me refiro, utilizemos um exemplo: devido à uma lei criada por um legislador desprovido de conhecimento econômico, cada estudante precisa ter um caderno único para cada matéria estudada, não podendo usar o mesmo caderno para matemática e português, digamos. Isso aumenta diretamente a demanda por cadernos nas livrarias, que por consequência passam para as fábricas o pedido e as últimas acabam por cortar mais árvores para conseguir atender a demanda por papel. Com menos árvores há menos madeira - dois recursos escassos com usos alternativos - e por isso a indústria de móveis feitos de madeira acaba tendo que aumentar seus preços já que há menos obra prima disponível e uma dificuldade maior de encontrar regiões florestadas o suficiente em que seja permitido a derrubada da vegetação local.
Novamente, repito a frase anteriormente citada:
”A estrada para o inferno está cheia de boas intenções.”
Devido à uma lei criada com o melhor dos intuitos, ajudar no aprendizado de crianças e jovens, o custo da indústria de móveis feitos de madeira aumentou. A minha intenção aqui é mostrar o quão disperso os dominós podem se espalhar, derrubando um a um, e provar que é impossível para seres humanos, capazes de errar, conseguir saber todas as consequências que podem seguir uma decisão econômica, ainda mais se falarmos de todos os itens disponíveis na sociedade. Nenhum de nós é um engenheiro social capaz de controlar uma comunidade como bem entende sem causar consequências indesejadas posteriormente.
Quando um teto salarial é imposto e ele se encontra abaixo do que seria o equilíbrio de mercado entre contratantes e contratados, a oferta de trabalho nesse ramo logo cai. As pessoas que eram qualificadas o suficiente para trabalhar recebendo, digamos $100 - representando o equilíbrio de mercado - e que agora receberão no máximo $80, preferem largar essa área e mover seus esforços para um setor parecido que não seja regulado, ganhando por exemplo, $90. Um exemplo seria impor um teto salarial em desenvolvedores de aplicativos de jogos; eles simplesmente largariam a indústria de games e passariam a desenvolver aplicativos de redes sociais, digamos. Apesar de não ser a sua especialidade, o trabalho ainda consegue ser feito de maneira eficiente e por isso os contratantes não se importam. O principal afetado por esse teto não é o desenvolvedor em si, mas a economia como um todo. Alguém talentoso em um setor deixa de trabalhar onde consegue entregar o máximo da sua capacidade e conhecimento, para trabalhar em sua segunda opção
Uma analogia poderia ser feito para professores de universidade. Tendo um profissional que se profissionalizou em história econômica geral, faz todo sentido que ele dê uma cadeira sobre esse assunto. No entanto, se por algum motivo ele não é posto para ministrar essa aula e é colocado para ensinar introdução à economia, apesar de ser totalmente capaz de fazer isso, ele não estaria sendo usado ao máximo de sua capacidade e os principais atingidos seriam os estudantes, que apesar de continuarem a aprender ambas matérias, poderiam estar aprendendo de maneira melhor se cada professor estivesse na sua área de máxima expertise.
O oposto acontece em um piso salarial. Se no salário máximo quem deixa o setor é contratado, no salário mínimo quem não permite a entrada de novos empregados é o empregador. Quando um piso salarial é posto acima do que o equilíbrio de mercado exige, o empresário tem como um desincentivo contratar novas pessoas, o que acaba prejudicando principalmente os jovens - já que se não é possível pagar menos para alguém com menos experiência, os empregadores disputarão por aqueles funcionários mais maduros.
O equilíbrio de mercado é encontrado não somente pela questão de oferta e demanda quando se trata de trabalho, mas também do quanto o funcionário é capaz de produzir. Por mais que houvesse apenas 1 pessoa querendo trabalhar como recepcionista no mundo, não há porque entregar milhões para a mesma, visto que por mais que seja um excelente recepcionista, o indivíduo é incapaz de gerar milhões de faturamento para a empresa.
Recentemente, no Brasil, foi proposto um piso salarial para enfermeiros, muito defendido pelos mesmos. É verdade que com R$5.000 não se vive de forma extremamente confortável em São Paulo, mas quando se impõe uma lei dessas, ela acaba valendo para o país inteiro, inclusive em cidades minúsculas do interior do Acre onde tamanha quantia é mais do que o suficiente para qualquer profissão da região. Muitos hospitais e clínicas particulares que tivessem de pagar tamanha fortuna para cada um desses profissionais teriam de fechar suas portas devido à 1) falta de enfermeiros já que os estabelecimento não teriam como pagar todos e manter um número mínimo desses funcionários para que todas as funções fossem devidamente feitas ou 2) por manter todos os funcionários com o reajuste de salários e lentamente ficar sem dinheiro. Uma maneira de resolver ambas situações seria aumentar em muito os custos já altos do setor da saúde, mas a que custo para a economia?
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Obrigado por ler até aqui. Espero ter sido de ajuda para compartilhar qualquer conhecimento, já que o mesmo está disperso pela sociedade.
