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Projeto Millennium: Capítulo 1 - Medo

Rio de janeiro, Brasil

6 meses antes do Marco Zero

Dentre todas as coisas que se deve ou não fazer, qualquer morador do Rio de Janeiro saberia que andar tarde da noite no Centro da cidade não era uma boa ideia. Adentrar em uma rua escura e pouco visitada seria algo ainda menos prudente. Ulisses andava tão distraído ultimamente que nem cogitou a imprudência de entrar àquele horário na rua que costumava usar tantas vezes como atalho para não chegar atrasado no trabalho. Talvez também não tivesse sido uma boa ideia estender tanto o happy hour com Daniel, mesmo sabendo que o dia seguinte ainda seria um dia de trabalho.

Tudo estava muito escuro, quase nenhuma iluminação; a movimentação de pessoas ali era zero e não se conseguia ouvir praticamente ruído nenhum. Uma água escoando de algum encanamento aberto, o barulho do vento arrastando alguns papéis mais à frente e mais nada além disso. Nem parecia que em uma rua próxima ainda houvesse um certo movimento de carros e pessoas. Na verdade, o silêncio naquele lugar ultrapassava o natural. Ulisses não era alguém que se deixava levar por coisas tais como o medo do escuro, mas um arrepio frio começou a lhe passar pela nuca.

"Deus me livre de ter algum bandido nesse lugar! Eu nem teria a quem pedir ajuda!" – pensava.

Engraçado como mesmo um ateu em momentos como esses, às vezes pensa em alguma frase contendo a palavra “Deus”. Isso talvez porque instintivamente Ulisses soubesse que o tal medo que sentia estava longe do medo de ser assaltado. Era algo mais profundo, talvez mais sobrenatural do que isso. Desde alguns passos mais atrás, sentia a estranha sensação de estar sendo vigiado. Poderia até mesmo jurar que sentiu, por um breve momento, alguém respirar em sua nuca e sussurrar algo inaudível ao pé do seu ouvido.

"Ulisses, seu idiota, não tem ninguém aqui!" – dizia para si mesmo, desejando não ter assistido a maratona de filmes da Sexta-feira 13 com seu amigo Daniel naquela semana.

Ouviu passos atrás de si e virou-se automaticamente, com o coração quase saltando do peito. Porém, nada. Somente a rua vazia e o barulho do vento, que parecia um pouco mais frio agora. Ao olhar para a escuridão atrás de si, sentia como se “algo” o estivesse encarando de volta. Poderia jurar que percebeu um leve movimento no meio da escuridão. Naquele momento, Ulisses começou a sentir a necessidade de apertar um pouco mais o passo, e assim o fez. Já estava quase correndo, na verdade. O caminho parecia mais longo que o normal. Teria entrado na rua errada? Virou uma rua, duas ruas. Esquerda, direita, direita novamente... agora estava em algum lugar que não se lembrava de ter visto antes. Ele estava se dando conta que à noite todas as pequenas ruas do Centro do Rio pareciam iguais.

Foi ao virar a última rua que notou a presença dele. Sentado na calçada um pouco mais à sua frente, com as costas apoiadas em um container cheio de lixo, estava um homem. Sua aparência contrastava com o ambiente, usando roupas finas, um terno preto com uma camisa branca por baixo e um sapato bem lustrado. Sua pele era tão branca que quase se confundia com a cor da camisa. O que lhe dava um ar peculiar era um chapéu-coco, parecido com o que usava Chaplin em seus filmes do cinema mudo. Sentava-se apoiado no lixo, com seu braço direito sobre o seu joelho, como se estivesse sentado no gramado de um parque, apreciando a bela vista. Olhava fixo para o chão, enquanto dava uma forte tragada em um cigarro, sem nem mesmo parecer perceber a presença de Ulisses.

Ao ver aquele homem estranho, a vontade de Ulisses era dar a meia volta e tentar outro caminho, porém tinha a certeza que seguindo direto naquela rua iria dar próximo à sua casa. Mesmo tendo algo no profundo de sua mente lhe dizendo fortemente para não passar por ali, decidiu por achar que era um medo irracional e acabou seguindo em frente. Chegando mais próximo ao container onde o homem estava apoiado, começou a sentir um forte cheiro, como o cheiro de carne apodrecida. Tão forte que chegava a enjoar. Reparou que ao lado do container jazia um cachorro morto, com a barriga aberta, como se houvesse sido atropelado. Na verdade, pelo estado do corpo e pela quantidade de bichos, parecia já estar ali por alguns dias. Não conseguia entender como aquele homem aguentava ficar sentado ali com um cheiro tão forte assim. Colocando a mão sobre o nariz, passou, ainda sem ver reação alguma nele. Na verdade, ele preferia que aquele homem continuasse como estava.

– Perdido, rapaz?

Ulisses deu um salto para o lado. Quase gritou. Do jeito que já estava apreensivo com a situação, ouvir a voz daquele homem do nada foi quase como algo do além. Era uma voz suave e um pouco grave, chegando a ser um pouco sinistra. Sua aparência era sombria, mas ainda não conseguia lhe discernir o rosto direito, por causa da escuridão.

– S-sei muito bem para onde estou indo, obrigado! – sua voz estava meio rouca pelo susto.

– Pois não parece – disse o homem dando um leve sorriso. – Tome cuidado, esses becos não são lá muito seguros a essas horas.

Repentinamente, alguma coisa se mexeu dentro do container de lixo, o que fez Ulisses dar um passo atrás. Viu algumas sacolas de pano com manchas escuras e úmidas. Aquilo não lhe deixou uma boa impressão.

– Aqui é muito mais perigoso para você do que para mim – disse Ulisses com um tom altivo, se referindo aos trajes do homem. – Você é louco de andar por aqui vestido desse jeito. Vai atrair os assaltantes!

– Venho buscar algo muito precioso para mim. Vale a pena o risco – e desdenhou, sorrindo mais uma vez com o canto da boca, enquanto levantava o cigarro para mais uma tragada.

Mais um movimento no container fez o coração de Ulisses disparar. Seria um gato ou o quê? Meio assustado e um pouco desconfiado com a última sentença daquele homem, preferiu seguir sem falar mais nada. Continuou andando sem dar mais atenção a ele. Pouco antes de passar pela esquina mais próxima, arriscou um último olhar para trás. O homem continuava apoiado no container de lixo, olhando fixamente para um relógio de bolso dourado. "Só pode ser maluco! Um maluco cheio da grana, mas mesmo assim, maluco".

Ficou tão absorto pensando no que acabara de lhe acontecer, que demorou a perceber que estava sendo seguido, desde que passou pela última esquina. Depois de andar mais um pouco, ouviu o barulho de passos e olhou para trás, vendo um homem de jaqueta marrom seguindo-o a poucos metros. Apertou o passo, o que fez seu perseguidor começar a seguir seu ritmo. Já percebendo o possível assalto, começou a correr, e notou que seu perseguidor começava a correr junto. Ouviu um estouro que parecia um tiro e se jogou ao chão. Rapidamente o sujeito de jaqueta o alcançou. Agora sim ele estava ferrado. O homem apontava um revólver direto para o seu peito e, com a voz muito alterada, gritava:

Perdeu, irmão! Passa tudo que tiver no bolso! Não vai ficar um centavo!!!

– Cara, calma, por favor! Só tenho um celular e alguns trocados, nem deu pra pegar o ônibus! – Ulisses respondeu, ainda caído sentado no chão.

– Se não tiver pelo menos vintão, vai morrer, maluco! Passa tudo! – seus olhos estavam vermelhos (certamente drogado) e, pela expressão, parecia decidido a realmente puxar o gatilho.

– Peraí cara, eu vou te passar tudo! – e colocou a mão no bolso de trás em um movimento desesperado e brusco, sem perceber o seu grande erro. Se houvesse um manual de como não agir em um assalto, fazer um movimento como esse estaria entre os primeiros tópicos.

O homem puxou o gatilho quase imediatamente. Seguiram-se um clarão e um estampido alto. Ulisses olhou para baixo e viu o que ele mais temia: sangue. Pelo visto tudo aconteceu tão rápido que ele nem chegou a sentir a dor do tiro. O sangue manchava sua camisa e ele o sentia escorrer pelo rosto. Atônito e esperando ainda sentir a dor do tiro, ouviu seu algoz gritando desesperadamente. Foi quando percebeu que o sangue não era seu. Olhou para o lado e viu a arma caída no chão, enquanto o homem apertava com força seu braço sem mão. Seria possível ela ter explodido?

Joca Sapateiro! Você cometeu o maior erro da sua vida! – disse uma voz vinda das sombras logo atrás deles.

Ele já tinha ouvido aquela voz um pouco antes. Quando olhou para trás do sujeito de jaqueta, viu o homem de chapéu-coco sair das sombras, andando em sua direção. "O que esse cara fez? Como?" – os pensamentos de Ulisses estavam confusos. Não havia em sua mente uma explicação clara para o ocorrido.

– V-você!? – disse o assaltante, num tom desesperado. – Mas eu não fiz nada! Juro que não ia matar ninguém!

O homem do chapéu-coco aproximou-se calmamente do suposto Joca e, dando uma tragada no cigarro e jogou a fumaça direto seu rosto. Abriu um largo e irritado sorriso enquanto olhava para a aparência assustada do rapaz. Ulisses estava ainda paralisado olhando para a cena.

– De todas as maneiras de autodestruição do ser humano, essa é uma das que mais gosto – disse o homem, segurando o cigarro em sua mão esquerda. – Suave, silencioso, relaxa e o ajuda a pensar melhor, enquanto corrói lentamente seus pulmões ao passar dos anos. Bem diferente, eu diria, de determinados vícios que corroem a sua mente e capacidade cognitiva, fazendo-o tão indiferente aos perigos contra sua própria vida – e apagou o cigarro numa mancha de sangue que estava no ombro da jaqueta de Joca.

– P-perdoe-me – disse Joca, se contraindo de dor – Não consigo entender o que você quer dizer...

– Quero dizer que o seu vício em cola subiu à sua cabeça, seu estúpido! – o homem de chapéu-coco parecia irado. – Ainda que eu tenha dito para ficar em casa hoje, você insistiu em sair? Mesmo depois de todas as chances que lhe dei, ainda insiste em desafiar minhas ordens!? A mera tentativa de ferir meus protegidos é imperdoável!

"Protegido?" – Ulisses estava ainda mais confuso. O que aquele louco estava dizendo? Tinha acabado de vê-lo pela primeira vez no beco! Pelo menos era isso que ele imaginava.

– P-protegido? E-e-eu não sabia! M-me perdoe, por f-favor!! – ciente de que havia cometido um grave erro, estava claramente desesperado.

– Você sabe muito bem como as coisas funcionam – disse, aparentando estar mais calmo. Começou a estalar ruidosamente as juntas dos dedos das mãos. – Já não há mais espaço para perdão e eu serei obrigado a pegar aquilo que é meu por direito. TËQEL!!

Gritando aquela palavra estranha, o homem de chapéu-coco, estalou os dedos com força. Ouviu-se outro estampido forte seguido de um clarão, e Joca desabou no chão, gritando. Seu joelho esquerdo (ou o que havia restado dele) estava ensanguentado e Ulisses pôde ver, por baixo da calça agora rasgada pelo impacto, um certo desenho brilhando em vermelho vivo na sua perna. Sem entender direito o que acontecia, desesperou-se ao ver a cena e levantou-se, correndo o máximo que pôde, enquanto ouvia outros estalos altos atrás de si, seguidos de urros terríveis.

"O que está acontecendo aqui!?" – ele corria, ainda tentando entender o que havia acabado de ver. Parecia estar dentro de um dos filmes de da Sexta-feira 13.

Conforme imaginava, seguir a rua até o fim acabou por levá-lo para a avenida, que ainda estava um pouco movimentada. Continuou correndo até quase não aguentar e parou, ofegante, apoiado em uma parede. Já estava longe o suficiente. As pessoas passavam direto e nem lhe davam atenção, sem nem mesmo reparar que estava todo sujo de sangue. Sentou-se, em choque, tentando organizar seus pensamentos.

Quando estava ponderando se o que acabara de ver tinha ou não sido real, ouviu o grito de uma mulher. Olhando ao seu redor, viu um pouco mais à frente a tal mulher, olhando para cima e ainda gritando desesperada. Algumas pessoas que passavam começaram a se aglomerar em volta de um poste e também olhavam para cima, com uma expressão horrorizada. Ulisses não conseguiu ver direito, mas havia algo pendurado no poste.

Quando chegou próximo, viu uma massa avermelhada, que reconheceu, pela jaqueta, que aquilo já havia sido um ser humano conhecido como Joca Sapateiro. O rosto estava completamente desfigurado e faltavam-lhe membros. Desviando o olhar, viu na entrada de um beco, o homem de chapéu-coco olhando para ele, com um forte brilho vermelho nas pupilas dos olhos e um sorriso maléfico em seu rosto, desaparecendo na escuridão.