História baseada em fatos reais.
Uma Odisséia no Deserto
Sob o calor escaldante do deserto, Ayla aguardava as chaves do carro com a ansiedade de alguém prestes a se aventurar em um país onde os olhares dos homens entregavam uma curiosidade ao notar mulheres turistas viajando sozinhas.
Enquanto esperava, dirigiu-se ao atendente: "Estou indo para Ait Ben Haddou, você acha seguro?", como se fosse a primeira pessoa com quem compartilhava sua preocupação. Um breve sinal de surpresa passou pelos olhos do funcionário que preenchia seu cadastro em um computador tão antigo que cada palavra que digitava parecia ter que esperar alguns minutos para atualização. Você vai sozinha? indagou preocupado. "Sim", respondeu Ayla. "Você precisa ter cuidado", alertou ele.
Embora tivesse feito a mesma pergunta a outras pessoas que encontrou nos dias anteriores em Marrakech, o alerta do atendente foi diferente das outras respostas que recebeu. "Mas cuidado com o quê? É perigoso uma mulher viajar sozinha no Marrocos?", perguntou ela com um olhar inquieto. "Não exatamente por isso, mas tenha cuidado com as perigosas curvas nas montanhas. Muitas partes da estrada não tem proteção", respondeu ele com um leve sorriso tranquilizando-a. "O Marrocos é um dos países mais seguros para mulheres na África. Seu maior risco está realmente nas estradas sinuosas da montanha".
Ayla sentiu uma onda de confiança se instalar em seu ser. Aquelas palavras foram reconfortantes, pois o atendente também foi a primeira pessoa que destacou sobre essa segurança para mulheres no Marrocos. Com as chaves do carro alugado em mãos e sua pequena mala acomodada no porta-malas, ela partiu com entusiasmo.
Foram 200 quilômetros de estrada em uma viagem de cinco horas que exigiu habilidade e total concentração. A estrada era realmente desafiadora, com diversas curvas sinuosas que pareciam uma obra de arte esculpida pela própria natureza. A cada nova curva, uma vista deslumbrante se revelava, provocando o desejo de parar o carro para admirar tamanha beleza.
Num posto de gasolina ao longo do caminho, Ayla se deparou com um banheiro peculiar. Embora impecavelmente limpo, a forma de utilização era um tanto inusitada. Encher um balde d'água na torneira para acionar a descarga era uma novidade que a fez dar muitas risadas.
Prosseguindo em sua jornada, Ayla passava por vários vilarejos localizados entre as montanhas, onde a necessidade de reduzir a velocidade era constante. Eram vilarejos como verdadeiros tesouros ocultos entre as colinas douradas, com casas de tons terrosos se entrelaçando em uma arquitetura típica e encantadora. Pequenas lojas exibiam tapeçarias feitas à mão, cerâmicas delicadamente adornadas e joalherias repletas de pedras preciosas encontradas nas profundezas do deserto. À medida que crianças curiosas corriam ao redor dos carros pelas ruas estreitas, seus olhares se encontravam com os de Ayla, repletos de surpresa e admiração. Talvez fosse pela presença de uma mulher, vestida com uma simples camiseta regata, desbravando aquele caminho sozinha, pensava Ayla.
Ao deixar para trás as zonas de vilarejos, adentrava novamente aquelas estradas montanhosas, onde apenas as pedras que formavam as montanhas eram visíveis. Ayla soltou um suspiro, agora era só ela e aquela vista magnífica novamente. Foi então que, de repente, Ayla se deparou com uma cena comovente. Uma figura vestida em uma burca preta, que Ayla logo identificaria como sendo uma mulher, acenava pedindo carona, enquanto três crianças a acompanhavam. A hesitação inicial a invadiu. "Melhor eu não parar, nem sei se por trás dessa roupa seria uma mulher mesmo", disse ela para si mesma enquanto dirigia. No entanto, a cena logo foi a deixando comovida. Três crianças, visivelmente exaustas; uma delas sentada sobre a terra vermelha tão seca que sua roupa estava completamente suja, enquanto as outras duas se agarravam ao braço da mulher, como se buscassem apoio para descanso. Uma sensação de empatia a envolveu; poderia ser minha mãe ali, pensou Ayla. Então, com determinação, ela para o carro alguns metros à frente.
A mulher e as crianças, ao avistarem o carro parando, correram em direção a ele com alegria estampada em seus rostos. Ayla observava do espelho, estudando cada detalhe. Eram duas meninas, com idades entre 10 e 12 anos, e um menino, com no máximo 7 anos. Ela ponderou que talvez não falassem inglês, mas a língua nunca tinha sido um empecilho para ela.
Quando o menino entrou no carro, ocupando o banco da frente ao lado do motorista, seu susto diante de Ayla ao volante não passou despercebido. Ayla também se surpreendeu com a criança menor sentada no banco da frente, mas logo percebeu que se tratava de um gesto de respeito pelo gênero do menino. Afinal, logo ele se tornaria um homem. Ele sentou-se com um semblante tímido, muito diferente daquela expressão radiante que o acompanhava em direção ao carro. Enquanto isso, a mulher e as meninas se acomodavam no banco de trás.
A mulher, cujo rosto estava completamente coberto pela burca, ao ver Ayla no banco do motorista, retirou o tecido que ocultava seu rosto, revelando um sorriso radiante. Com grande euforia, ela começou a falar diversas palavras, uma atrás da outra, em uma língua totalmente desconhecida para Ayla. "Sorry, I don't speak arabic", dizia Ayla, rindo enquanto tentava entender a animação da mulher. "Do you speak english?" perguntou Ayla, olhando para cada um deles na esperança de uma resposta positiva. "Arabic, arabic", respondia a mulher, no meio de várias outras palavras que Ayla não conseguia decifrar se aqueles fonemas formavam uma única palavra ou diversas frases no meio de tantas outras. Era como "Uma Odisséia no Espaço", passava pela mente de Ayla, enquanto pegava o celular e o abria para usar o Google Maps.
Através de gestos e algumas palavras isoladas que Ayla supôs terem um som semelhante ao da língua deles, ela pediu à mulher que digitasse o seu destino. No entanto, a mulher logo percebeu que o teclado não continha o alfabeto árabe. "Arabic, arabic", repetia ela. Sem hesitar, Ayla acessou as configurações do telefone e adicionou o alfabeto necessário. Assim, a mulher pôde digitar seu endereço, que não era muito distante do ponto de encontro deles - cerca de 30 minutos à frente, exatamente no mesmo caminho que Ayla deveria seguir. Dessa forma, seguiram adiante na viagem.
No início do trajeto, o menino à frente permanecia tímido, enquanto a mulher e as meninas atrás sorriam constantemente. Com frequência, a mulher tocava os ombros de Ayla em sinal de agradecimento, complementando com várias palavras que Ayla não compreendia, mas conseguia sentir a emoção por trás delas.
Vários fonemas soavam como perguntas, às quais Ayla respondia na sua própria língua, mesmo sabendo que ninguém compreendia. A dificuldade de entendimento entre as línguas foi motivo de muitas gargalhadas, inclusive do menino. Ao escutar tantas risadas, Ayla percebeu como as emoções falam mais do que mil palavras.
