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O sorriso que era meu

O sorriso que era meu

– Cristiane?

De pernas cruzadas, Kindle na mão esquerda, a xícara de espresso na direita, a mulher de tênis preto, shorts jeans e camiseta branca levantou—me os olhos e voltou a baixá-los.

– Está atrasado.

– Acho que você está me confundindo com alguém. Não tínhamos um encontro.

– Eduardo, quinta série, urinou nas calças, estourou o queixo na porta do banheiro, atropelado por uma Kombi, dentes tortos...

– Como sabe de tudo isso?

– Por que acha que eu só conversava com você? Por que eu sorria só pra você? Por que eu soltava meus cabelos quando você estava perto de mim?

– Eu, eu … estava muito ocupado sendo o centro das atenções da minha timidez.

– Te dei tantas chances …

– Não chore, por favor …

– Quem te deu permissão pra sentar?

– Ah, pensei que … quisesse conversar…

– Eu quis, nos últimos trinta anos; você não me procurou. Esperei por aquele garoto que me fazia companhia, que me tratava bem. Ensaiei o que te diria quando nos encontrássemos. Quantos textos publiquei, esperando que os lesse e identificasse sua figura entre minhas palavras sofridas.

– Você também escreve?

– Até ontem, eu publicava n'O Globo. Alegaram que meu público estava cada vez menor. 

– Peraí, vai me dizer que você conhece o Eduardo Agualusa?

– Claro que conheço. Meu mentor. Ele me emprestava seus ouvidos para as histórias do xará que me desprezou.

– Não te desprezei, meu Deus! Eu não sabia. Mesmo se soubesse, nem sei se teria a coragem de te falar. Eu era apaixonado por você, pelos seus longos cabelos cacheados, pelo seu rosto simétrico, pela boca carnuda. Toda vez que ouvia Secret Smile, do Semisonic, lembrava do seu sorriso. "Nobody knows it, but you've got a secret smile and you use it only for me ..."

– Você cantando é pior que pedindo desculpas.

– Cris, podemos recuperar o tempo perdido, começar uma vida juntos e…

– Tem o Augusto, o João, o Gustavo e o ...

– Não me lembro deles.

– Meu esposo e meus filhos.

– Eu achei que você tivesse esperado por mim por todo esse tempo.

– Cantei "Estou casando, mas o grande amor da minha vida é você", do Gian e Giovani. Onde você estava?

– Cris, eu …

Vem correndo e esbarra em mim um menino magro, cabelo cacheado e sandália do Batman.

– Vem cá dar uma abraço na mamãe! Que boneco mais legal!

– Mãe, já falei que não é boneco, é action figure!

– Ah, a mamãe tem péssima memória, meu Eduardo favorito.

– Quantos Eduardos você tem na vida, mãe?

– Só um, meu amor.

Ao afastar-me, vi o sorriso mais bonito da vida. Um sorriso que era meu e que agora era dos seus meninos.