“Fazer planos é fazer cócegas em Deus.”
Gosto muito desse ditado. E ele resume bem o meu começo de 2026 no ciclismo.
Em termos de treinamento estruturado, o ano não foi exatamente aquilo que eu tinha sonhado no Ano Novo. Consegui executar alguns bons blocos de treino, mas algumas complicações com viagens e material esportivo, especialmente bicicletas, acabaram tirando a consistência em que eu tanto acredito. Uma consistência que eu entendo, já experimentei e sei que gera bons resultados.
Quando o segundo trimestre começou, olhei para a prova do Giro d’Italia Ride Like a Pro, em Campos do Jordão, e liguei para meu mestre, Ronaldo Martinelli.
— Professor, posso?
Ele respondeu com aquele sotaque característico de paulistano:
— Pedrão, não foi ontem nem anteontem que a gente fez a base. A gente vem construindo ela ao longo dos últimos anos. Toca ficha.
E assim fiz minha inscrição numa prova que é muito querida para mim.
A prova sai de Campos do Jordão, sobe até o Alto da Boa Vista, desce a Serra Velha e então cruza um dos lugares mais queridos da minha vida: São Bento do Sapucaí.
Foi lá que a Luciana, o Jefferson e a minha esposa Marcella abriram as portas de sua casa e de suas vidas para me receber anos atrás, quando vim para São Paulo. Foi também um lugar que marcou profundamente a minha história pessoal, o lugar onde casamos. Um lugar onde conheço os buracos do asfalto, o gradiente das subidas e a inclinação das curvas.
Correr o Giro, para mim, não é especial apenas pelo meu amor ao ciclismo italiano. É especial porque, de alguma forma, é uma prova em que eu corro em casa.
Ronaldo conseguiu uma bela máquina para eu correr no domingo: uma S-Works SL7, alugada por um ex-professor da Five, hoje à frente da loja da família, a Ciclo Ravena.
Fiquei tão animado quanto nervoso. Correr uma prova com a complexidade técnica do Giro já exige respeito. Fazer isso com uma bicicleta daquelas trazia uma sensação extra de responsabilidade.
Embarquei para São Bento na sexta-feira depois do almoço. Chovia forte em São Paulo, e sair da cidade foi nada menos do que complexo. Mas nem por isso me incomodei. Fui ouvindo música, podcast, curtindo a viagem e sabendo que estava indo para um dos lugares de que mais gosto.
Cheguei depois do anoitecer. Jantei no centro da cidade, no Casarão, subi para o Alto do Paiol pela estrada da Ana Chata e deitei para descansar ouvindo o barulho da chuva no telhado, curtindo aquele silêncio que só o interior entrega.
Na manhã seguinte, acordei bastante descansado. Abri a janela e vi o monumento visual que as nuvens formavam embaixo do vale, cercado por montanhas, colinas verdes, campos e florestas. Uma fotografia deslumbrante dessas que a Mantiqueira brasileira entrega sem fazer esforço.
Na quarta-feira anterior, eu tinha conversado com o Jefferson sobre palácios, castelos, igrejas e monumentos na Europa. Então mandei para ele uma foto daquele amanhecer e comentei que, por mais belas que sejam as construções renascentistas italianas, o homem ainda não conseguiu replicar o que a natureza daqui entrega.
Saí para um pequeno giro de reconhecimento em São Bento. Logo notei alguma dificuldade no câmbio traseiro, um eletrônico de última geração com o qual eu não tinha muita experiência. Não consegui resolver.
Parei, dei meia-volta, peguei o carro e subi para Campos do Jordão. No caminho, fui reconhecendo a estrada do Paiol, que eu encararia de bicicleta no dia seguinte. São mais de sete quilômetros com quase 800 ou 900 metros de ganho de altimetria. Inúmeras curvas. De carro, é uma delícia. Um dos trechos mais gostosos de subir que eu conheço.
Cheguei em Campos, e os mecânicos da Shimano me ajudaram como puderam. Reconfiguraram o eletrônico dos câmbios. Eu passaria as marchas por pequenos botões escondidos nos STIs. Não era o que eu gostaria, mas era o que teríamos.
Peguei o kit, levei minha maglia rosa para casa, curti um pouco o verdadeiro festival que acontece em torno da bicicleta e voltei.
No caminho, veio uma notícia feliz. A Lu e o Jé decidiram ir para São Bento, animados pela beleza da fotografia que eu tinha compartilhado com eles. Quando cheguei em casa, eles já estavam lá, junto com a Joaninha, sua filha. O fim de semana virou um fim de semana em família.
À tarde caiu. Jé, como Chef de culinária oficial da família, preparou uma deliciosa massa italiana com queijos locais. Aquele carboidrato me nutriu pensando no dia seguinte. Mas acho que o calor da lareira, a conversa e o estar em família me nutriram ainda mais.
Dormi aquele sono preocupado de véspera de prova.
Dizem que, se a gente não fica nervoso, é porque não está se importando o suficiente. Eu dizia para mim mesmo, e também compartilhei com Jefferson, que não tinha grandes intenções de competir no domingo. Para mim, seria um grande treino de luxo.
Mas, ao botar a cabeça no travesseiro, eu sabia que algo em mim queria dar o melhor. Eu não ia alinhar na largada simplesmente para fazer um passeio.
Acordei de madrugada antes mesmo do despertador. Levantei, fiz um café na minha Bialetti — italiano, claro — peguei o carro e subi para Campos. Fui cortando a madrugada, subindo mais uma vez o Paiol.
Cheguei, estacionei fácil, me arrumei e encontrei alguns amigos da Five. Trocamos desejos de boa prova. Os minutos antes da largada correram rápido.
Faltavam 25 minutos.
Depois 20.
Cinco minutos, pessoal.
Três.
Dois.
Um.
Pá.
Largamos no pelotão da frente.
Na véspera, meus colegas de ciclismo porto-alegrense - Diogo "Magro", Marcus "Marcão", Rodrigo "Cata" e Eduardo "Duda" - tinham me desejado boa prova, sabedoria e também “derretimento”. É um termo que usamos de brincadeira para dizer: vamos lá, coloca tudo o que tem nos pedais e dá o teu melhor.
Larguei com sabedoria. Andei um pouco com o pelotão da frente. Nas primeiras subidas, ainda dentro de Campos, bastante empinadas e curtas, tirei um pouco o pé. Subi preservando glicogênio.
Começamos a descida.
Logo notei que o freio de trás não funcionava como esperado. Quase toda a frenagem acontecia na roda da frente. Não era uma situação ideal para uma prova como aquela, com bons cotovelos pela frente, especialmente a Serra Velha.
Eu já não sou um descedor nato. Mas ali senti como se a S-Works olhasse para mim e dissesse:
— Pedro, eu não estou 100%. Tu não está 100%. Mas vamos ver se juntos a gente consegue tirar o melhor disso.
E assim foi.
Comecei a notar uma facilidade dela em contornar as curvas da Mantiqueira abaixo. Usei mais a gravidade, o corpo, o contrapeso. Esqueci um pouco a teoria e consegui aproveitar melhor o momento que estava acontecendo.
Chegamos ao final da Serra Velha ainda em boa posição, mesmo depois de eu ter sido ultrapassado por algumas dezenas de ciclistas numa descida cautelosa.
Então voltei para dentro da prova.
Começamos a colocar mais energia em um ou dois pelotões que foram se mesclando, cruzando o caminho que leva da Serra Velha até a estrada de Sapucaí-Mirim.
A minha estrada.
Chegando lá, assumi a frente do pelotão. Senti uma responsabilidade quase íntima de guiar todo mundo naquele trecho. Éramos cerca de 15 ou 20 ciclistas.
A força apertou.
290 watts.
310.
320.
Um sobe e desce gostoso cruzando Sapucaí-Mirim e começando a apontar em direção a São Bento.
O asfalto deu lugar a alguns trechos de bloquete, aos quais eu estou muito acostumado. Segui na ponta. Os 15 ciclistas viraram 10. Depois 5. E então me vi andando com apenas outros dois.
Segui fazendo força.
Comecei a pensar que aquilo teria um preço alto a ser pago quando chegássemos ao Paiol. O gosto de ferro comeceçava a aparecer na garganta.
Não me importei.
Algo em mim estava ferido, machucado. E conseguir fazer aquela força era quase uma forma de buscar cura para os treinos que eu não consegui fazer nos últimos meses. Segui de maneira talvez irresponsável, mas muito feliz.
Finalmente chegamos ao pé da serra.
Antes do Paiol, há uma pequena subida que passa em frente ao acampamento: cerca de 160 ou 180 metros de ganho em dois ou três quilômetros. Bastante empinada. Depois descemos e então chegamos ao Paiol.
Começamos a subir.
A subida dói.
Ela dói muito.
Fomos fazendo zigue-zague para lutar de alguma forma contra a inclinação daquele relevo. A expressão de dor estava estampada no rosto de todos.
Um quilômetro.
Dois.
Três.
Um dos meninos que estava andando junto comentou:
— Um amigo meu disse que, quando a gente ouve o barulho da água, é porque já está acabando.
Todos começamos a tentar ouvir alguma coisa.
Mas nada vinha.
Três.
Quatro.
Segui fazendo força, com muita concentração.
Ao cruzar aquele caminho, ao passar perto de lugares que guardam tantas memórias, comecei a sentir algo diferente. E, de alguma maneira, chorei. Um pouco de dor. Um pouco de alívio.
Fui soluçando, cruzado contra uma respiração ofegante e mais de 178 batimentos por minuto.
Alguns ciclistas passavam e me olhavam com uma cara estranha. Eu tentava enxugar as lágrimas por baixo dos óculos de sol.
Então um ciclista encostou em mim, colocou a mão no meu ombro e perguntou, com aquele típico sotaque mineiro:
— Está tudo bem, meu fio?
Eu respondi:
— Vai ficar.
Ele me olhou e disse:
— Solta esse peso que você está carregando. Peso não é bom para subida, não.
Ele sorriu.
Eu sorri de volta.
E encaramos os últimos quilômetros daquela subida com a energia renovada de quem sente que está chegando ao final.
Terminamos o Paiol com sucesso.
Chegamos a um altiplano de quase 1.700 ou 1.800 metros de altitude, pedalando em paralelo à Pedra do Baú, esse monumento belíssimo de São Bento.
Começamos então um trecho de rolling hills em direção à subida final. Algumas descidas bastante técnicas, onde a sombra das árvores ainda guardava umidade e água no asfalto, tornavam aquele trecho crítico.
Faltava pouco para terminar.
Não era o momento de errar.
Senti a S-Works falar comigo novamente:
— Vamos lá. Firme e forte. Firme e forte. Firme e forte.
Descemos aqueles trechos com muita atenção. Viramos, a floresta abriu, e chegamos à última subida da prova: a Campista.
Ali me lembrei de um Pedro mais novo, mais corajoso e talvez mais ingênuo. Um Pedro que se mudou de estado buscando um sonho de empreender, de levar uma companhia adiante. Um Pedro que um dia sonhou em fazer o Caminho da Fé, colocou a bicicleta debaixo do braço e encarou a aventura sem entender muito bem o que estava fazendo, carregando uma mochila pesada demais.
Comecei a subir a Campista imaginando esse Pedro pedalando do meu lado.
Ele me olhou e disse:
— Ô, sem mochila e sem subir a Luminosa antes, fica fácil demais isso aqui, hein? Chega de perna mole. Bora fazer força.
Eu ri.
Apertei os pedais.
Era hora de derreter o trecho final.
Reencontrei vários ciclistas que tinham me deixado para trás no Paiol. Um deles, que vinha conversando comigo antes, olhou e disse:
— Rapaz, o que que tá acontecendo?
Eu chamei:
— Bora! Bora junto!
Ele respondeu:
— Bora! Bora junto!
E aquela amizade gigante, que nasce em poucos minutos e que só aparece dentro de provas, emergiu.
Subimos firmes os trezentos e poucos metros de ganho que restavam. Entramos com energia em Campos do Jordão e cruzamos a linha de chegada felizes.
Fiquei embrulhado.
Cruzar uma linha de chegada naquele contexto foi algo relativamente único para mim. Era uma pequena brincadeira de ser atleta, mas naquele dia significou muito mais.
À medida que as semanas se aproximavam dessa prova, eu pensava que transformaria a frustração de uma rotina quebrada em energia. Achava que iria mover os pedais com raiva, inconformismo e vontade de compensar o que não tinha sido feito.
Mas, no fim, não foi com essa força que eu cheguei lá.
Foi com outra.
Foi com a força do lugar, da memória, dos amigos, da família, da bicicleta, dos anos de base, dos estranhos que viram companheiros de estrada.
E, acima de tudo, foi com a força Dele.
Porque fazer planos talvez seja mesmo fazer cócegas em Deus.
Mas pedalar, naquele domingo, foi aceitar que nem sempre a gente sobe mais leve porque está mais forte.
Às vezes a gente sobe mais forte porque, no caminho, aprende a soltar peso.

