Cover photo

diários de escuta#04

Derivas por Porto Alegre - parte 1
29 Fevereiro - 06 Março de 2020

Eu tenho andado com a pergunta: Por que cidade?, que tem se desdobrado em: Qual cidade? Com ela percorro os espaços urbanos buscando escutar o que a cidade tem a me dizer. Já contei um pouco do estranhamento interessante que foi voltar a São Paulo, minha cidade natal, após 9 meses fora, escutando outras cidades e outros sons. Essa mudança de escuta, ampliada e curiosa, levei comigo a Porto Alegre. Fui querendo menos controlar o que escutaria, e mais deixando a cidade me dizer o que existe em seus sons.

Passo uma semana em Porto Alegre, tomada de um desejo de conhecer a cidade através da escuta de seus espaços, suas histórias e suas sonoridades. Desde que comecei com esse processo de colecionar sons, as cidades se tornaram um terreno profícuo para mim. É saboroso poder abrir minha escuta a outros lugares, ainda que desconhecidos, e através dela me fazer pertencer, estar imersa nesses sons, deixar-me afetar pelo que vem até mim, sem querer controlar.

Nesta viagem tive a sorte e o privilégio de conhecer a Suzana Gomez Pohia, uma mulher bastante interessada na cidade, em seus espaços, em suas narrativas. Suzana tem um projeto que se chama Passarinho - Vivências Urbanas (https://www.facebook.com/passarinhovivencias/), em que propõe caminhadas pela cidade de Porto Alegre, trazendo à tona suas narrativas, suas histórias e memórias. Em comum temos a percepção de que a cidade não é somente passagem e deslocamento, mas também um lugar de encontro, contato, afeto e descobertas.

Porto Alegre: muro na Cidade Baixa - camadas sobrepostas que instigam uma arqueologia urbana.
Porto Alegre: muro na Cidade Baixa - camadas sobrepostas que instigam uma arqueologia urbana.

Com Suzana saí por duas vezes. A primeira foi uma noite pela Cidade Baixa, um bairro de Porto Alegre, bem próximo ao centro, que guarda muitas histórias. Ela me conduziu através de suas narrativas, remontando o caminho que costuma fazer em seu projeto, chamando minha atenção para elementos que eu não veria - ou escutaria - se estivesse só. Um rio que não se vê e que corre silenciado pelo asfalto, palavras que não estão mais nos muros, porque já foram apagadas pelo tempo de novos pixos e grafites, a história de uma árvore de pau-brasil em frente a uma borracharia, pegadas encravadas no cimento de uma calçada (por que algumas estão tingidas de vermelho? foram feitas de propósito?), casas inventariadas (que não podem ter suas fachadas alteradas) e enfim o Museu da Cidade.

Falamos muito sobre exclusão, sobre o que a cidade invisibiliza. Suzana é jornalista e museóloga, e tem um olhar bastante crítico e interessante, a partir das referências que traz, para essas invisibilidades. O que a cidade quer mostrar de si? O que interessa esconder? Muitas novas perguntas surgiram. Suzana me ensinou a olhar para as paredes de Porto Alegre. Eu que vinha ouvindo vozes, agora lia as mesmas nas palavras excluídas, apagadas, sobrepostas. Quanta coisa a cidade diz em seu silêncio…

não apague por gentileza: janela da Cidade Baixa… recado mais explícito?
não apague por gentileza: janela da Cidade Baixa… recado mais explícito?

Falamos do carnaval, da repressão que a prefeitura de Porto Alegre propôs aos cidadãos durante este período de festividade. E de como os sons sugerem violências. Porque justamente, em uma de nossas conversas, escutei o som de cavalos da Brigada (assim se chama a PM lá). Os cascos dos cavalos tocando o chão são para mim um som que traz uma memória de dias deliciosos, de andar em charretes na infância, de enfrentar meus medos ao montar os animais. Tem gosto de sítio, de família, de afeto. Mas para quem vive em Porto Alegre, junto com os cascos de cavalo vem a Brigada, montada, armada, com suas espadas e toda a repressão que lhe é inerente.

Sons são poderosos nesse sentido… escutar sua história de carnaval, narrando a repressão forte da Brigada Montada sobre as pessoas que apenas queriam se divertir, impondo uma exclusão, evacuação, e higienização das ruas, me fez repensar meus próprios afetos. Cascos de cavalo agora soam mais que lembranças da minha infância…

Dessa saída noturna, Suzana me recomendou algumas rotas na cidade. Uma caminhada pelo centro e também uma volta de bicicleta pela orla de dois rios que definem a geografia da cidade: o Guaíba, e seu lindo pôr-do-sol, orlas abertas e receptivas, e o Dilúvio, encarcerado em um canal entre as pistas da avenida Ipiranga.

rio guaíba
rio guaíba
rio dilúvio
rio dilúvio

Dilúvio e Guaíba: águas marcando a geografia da cidade, sonoridades e visualidades bastante distintas.