DeFi 101

Intro

Um panorama geral do ecossistema DeFi sem entrar em muitos detalhes sobre cada um dos nichos, um passo que daremos em textos futuros. Mas acredito que será mais fácil avançar nos conceitos de cada nicho e assimilar os propósitos de cada nova peça que surge no "Money Lego" do DeFi após a leitura desse texto.

Se você prefere o formato de vídeo clica aqui embaixo que tem um material super completo pra você assistir ou ouvir. Se é da galera do textão, seu lugar é aqui.

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Nossa jornada usará uma espécie de cronologia de micro-revoluções. E também acho que vale dar um passo atrás para entender de onde nasceu a ideia primitiva do DeFi, saber qual foi a grande revolução.

A revolução

Ethereum Network
Ethereum Network

DeFi é um sistema financeiro baseado em blockchain que visa oferecer serviços financeiros de forma descentralizada e isso é possível graças aos contratos inteligentes e à tecnologia blockchain, essa tecnologia nasceu com a rede de Ethereum em 2013. Porém, antes que os Bitcoin maximalistas me mandem pra forca, vale ressaltar que o primeiro grande protocolo de finanças descentralizadas que surgiu foi o próprio Bitcoin em 2009.

A criação do Bitcoin por Satoshi Nakamoto foi o início da revolução das criptomoedas e plantou as sementes para o surgimento de um sistema financeiro descentralizado. A plataforma Ethereum, criada por Vitalik Buterin e sua equipe, introduziu contratos inteligentes e permitiu a criação de aplicativos descentralizados (dApps). Essa inovação abriu caminho para o desenvolvimento de projetos DeFi mais avançados. Então esses dois protocolos, Bitcoin e Ethereum formam juntos a base de todo o ecossistema de Finanças Descentralizadas.

Primeira micro-revolução

Em 2015, Rune Christiansen cria o MakerDAO. Um dos primeiros projetos DeFi lançados na rede Ethereum. O projeto permitiu aos usuários obter empréstimos na moeda estável DAI, que era lastriada pelo próprio ETH, é o primeiro grande acontecimento no mundo DeFi.

Entre 2017 e 2018 Bancor e Uniswap são primeiros projetos a abordar o problema da liquidez no espaço DeFi. O surgimento do conceito de AMMs (Automated Market Makers) é a primeira grande conquista desde o MakerDAO e a liquidez descentralizada permite aos usuários trocar tokens ERC20 sem a necessidade de uma contraparte. Os AMMs usam pools de liquidez e um algoritmo para determinar o preço dos tokens em vez de um livro de ordens (orderbook). A Uniswap se tornou um dos principais projetos DeFi, permitindo a troca de tokens ERC20 e fornecendo liquidez para projetos em desenvolvimento.

Compound Finance
Compound Finance

Tudo isso era muito inovador e bonito mas a adoção do público em geral ao ecossistema DeFi era baixíssima e, na minha visão, a verdadeira primeira micro-revolução veio com o surgimento dos protocolos de empréstimos AAVE e Compound.

Esses protocolos com seus tokens AAVE e COMP explodindo e dando retornos astronômicos atraíram muitas pessoas para a Uniswap para compra-los. Na época, esses usuários não sabiam que ao fazer esse SWAP estavam garantindo também um excelente airdrop da Uniswap que ainda estava por vir.

Os lending protocols traziam novas possibilidades para os usuários DeFi e uma gama enorme de estratégias;

  • Short: onde o usuário colateraliza um ativo e empresta outro que em seguida é vendido. Se o ativo emprestado perder valor, a recompra para solvência da dívida será mais barata do que a venda inicial, gerando lucro.

  • Long: onde um usuário colateraliza um ativo e em seguida empresta um ativo para trocar por outro ativo que acredita que irá se valorizar frente ao ativo emprestado.

  • Carry on: mais tarde, quando começam a surgir os primeiros protocolos de liquidez, outra estratégia que se tornou possível usando lending protocols é o "carrego". O usuário colateraliza um ativo, empresta outro que tende a se desvalorizar em relação ao ativo colateral mas que tem um potencial de juros ou farming maior que o ativo colateral. Nesse caso, o usuário se mantém neutro em relação ao Delta do ativo emprestado e ainda pode participar de estratégias de alto retorno que envolvem esse ativo, que normalmente carrega mais risco que o colateral usado.

  • Looping: uma estratégia mais arriscada que envolve um altíssimo nível de confiança no colateral empregado. Na estratégia o usuário colateraliza um ativo que oferece o rendimento A e empresta um ativo que requer o pagamento do juros B. Há 3 premissas para essa estratégia; uma forte confiança no colateral, o ativo emprestado tender a estabilidade ou desvalorização em relação ao colateral e o rendimento A ser maior que o juros B. Se todas essas condições forem cumpridas, o usuário realiza uma série de operações de empréstimo e venda do token emprestado para comprar mais colateral e deposita-lo novamente na plataforma de lending. O looping pode render altos retornos porém se o colateral for liquidado, há uma expectativa de perdas significativas.

  • Exemplos de protocolos de empréstimos ou money markets;

Segunda micro-revolução

Convex Finance
Convex Finance

Os protocolos de liquidez chegaram no ecossistema DeFi para resolver um problema muito importante. A tecnologia de AMM usada pelas DEX, especialmente antes do lançamento da liquidez concentrada, tinha uma baixíssima eficiência. Isso causava grandes slippages (derrapagens) de preços nos SWAPs, o que era uma enorme barreira para adoção, especialmente de usuários com grande volume relativo.

Por conta desse problema, um batalhão de protocolos de liquidez surgiram para direcionar a liquidez descentralizada para os protocolos DEX aos quais esses projetos estavam associados. Em uma relação ganha-ganha, projetos de farm e vaults mais elaboradas ofereciam ganhos adicionais aos usuários que depositassem liquidez em determinadas DEXs e em seguida levassem seus tokens de LP para esses protocolos de liquidez.

Para quem não sabe, quando um usuário deposita um valor para prover liquidez em uma exchange descentralizada, normalmente recebe em troca um token que funciona como uma espécie de recibo. Esse token é a chave para que os protocolos de liquidez através de seus smart contracts recompensem os usuários que travam esses "tokens de recibos” em seus protocolos.

O protocolo Curve é a grande estrela dessa revolução, muitos protocolos de liquidez surgiram em volta desse projeto. Especialmente por conta do design econômico (tokenomics) da Curve. Para os provedores de liquidez terem acesso ao melhores retornos na Curve, eles devem primeiro ter uma quantidade de tokens CRV (tokens da Curve) travados em stake. Quando os CRV são travados, eles geram um token chamado de veCRV (Vote-Escrowed CRV). Quanto mais veCRV o usuário tiver mais rendimento como provedor de liquidez ele terá. O veCRV além de ser útil por esse fator, é o token usado nas votações da governança descentralizada do protocolo Curve. Sendo assim, deter veCRV significa ter mais rendimento nas pools de liquidez da Curve e ter mais voz nas decisões da plataforma. Decisões essas que podem inclusive envolver o direcionamento de recompensas para determinados ativos ou pools de liquidez.

Existem protocolos que montaram seus modelos de negócio completamente voltados para o protocolo Curve. O exemplo mais bem sucedido é a Convex Finance. Que tem como produto "Boosted Curve Staking” que significa nada além de rendimentos turbinados na Curve. Outro protocolo que se destaca é o Beefy. Que utiliza inclusive o modelo de "Bribes" que é uma espécie de suborno em troca de poder de voto. Os usuários que não se interessam por exercer seu voto através dos CRV adquiridos provendo liquidez na Curve, podem ceder esses tokens que serão travados e transformados em veCRV para serem usados pela Beefy para direcionar liquidez da maneira mais vantajosa para o protocolo.

Terceira micro-revolução

Synthetix
Synthetix

O surgimento de projetos como Synthetix, Iron Bank e o finado 🪦 Mirror é um outro grande marco no ecossistema DeFi. Esses projetos permitiram aos usuários estratégias novas e diversificação a um nível muito similar ao mundo das finanças tradicionais. Pode-se dizer que o DeFi hoje oferece um leque de possibilidades entre produtos e estratégias financeiras maior que muitos países podem oferecer nesse segmento.

Entre os produtos derivativos e sintéticos há indices, commodities, moedas, ações, bonds, opções e futuros. Uma gama de produtos que se combinado aos produtos já mencionados anteriormente podem reproduzir estratégias consagradas no mundo das finanças tradicionais como o short no Iene japonês usando o ibJPY.

Esse é um dos segmentos que ainda está muito sub-explorado no DeFi. Porém estão surgindo recentemente muitos projetos envolvendo esse nicho, buscando trazer ainda mais Real World Assets (RWA) ou “ativos do mundo real" para a arena DeFi.

Alguns dos projetos DeFi oferencendo RWA, sintéticos e outros derivativos são:

Vale ressaltar que esse nicho não seria possível sem a criação de protocolos de Oráculos como o da Chainlink.

Quarta micro-revolução

Uniswap Labs
Uniswap Labs

O lançamento da Uniswap v3 marca o surgimento de um novo primitivo DeFi. A liquidez concentrada. Como mencionei anteriormente, a liquidez nos produtos anteriores, como Uniswap v2, era absolutamente ineficiente e a Uniswap através do seu produto v3 fez a primeira proposta para solução desse problema. Embora eu acredite que a própria Uniswap ainda vá aperfeiçoar muito esse produto nas versões que vem a seguir, é inegável o sucesso estrondoso desse lançamento.

Aos interessados em prover liquidez concentrada, muito cuidado com a impermanent loss que é um risco associado aos AMMs. Esse risco é alavancado no produto v3 na mesma proporção que ele alavanca a liquidez dos usuários permitindo a concentração da mesma.

Não vou entrar em muitos aspectos sobre o funcionamento da liquidez concentrada pois é um tema muito complexo e acho que esse texto já está enorme. Mas se esse é o seu assunto preferido no DeFi sugiro que busque se informar bastante e que opere usando as calculadoras de hedge para Uniswap v2 e Uniswap v3. Outra ferramenta bem legal é o uniswap.fish.

Reforçando o alerta, sou um grande fã da marca Uniswap e admiro muito o que esse projeto representa. Mas sugiro extremo cuidado ao usar a Uniswap v3 como provedor de liquidez. Acho que o produto é excelente para a Uniswap e para o usuário que realiza o SWAP. Mas para o provedor de liquidez é um cassino perigoso. Esse recado é chato mas importante, especialmente aos que querem trabalhar com liquidez ultra-concentrada. Esse tipo de estratégia é o equivalente a ser Day Trader com gestão de risco invertida. Ou seja, ganhando pouco quando acerta e perdendo muito quando erra.

Acredito que soluções como Gamma e UniPilot podem ajudar mas que alguma mudança fundamental para proteger os provedores de liquidez deve vir na próxima versão, a Uniswap v4. Afinal, esses usuários são os mais engajados e mais importantes para o protocolo.

Quinta micro-revolução

Rocket Pool
Rocket Pool

Agora já estamos chegando mais próximo do tempo presente. A micro-revolução que vem agora talvez nem devesse ser chamada de micro… Talvez seja uma macro revolução… Mas peço licença poética pra categoriza-la dessa maneira e deixar meus subtítulos bonitinhos.

Estamos falando dos LSTs ou Liquid Staking Tokens. Eles nasceram com um nome mais legal que esse, eram chamados de LSDs - Liquid Staking Derivatives 👀 mas por questões de Gary Gensler, o pessoal achou uma boa mudar o nome.

Os LSTs representam uma posição em stake em um node de validação do protocolo Ethereum. Os nodes são como processadores de validação e exercem esse trabalho de confiança colocando como garantia uma quantia significativa de ETH (32 ETH) em stake. Ou seja, no dia em que escrevo, com o ETH custando por volta de US$1850, cada validador deixa como garantia uma quantia equivalente a US$59,200 em ETH.

Para deixar seus ETH em stake como validador solo e fazer a validação na prática já existe a primeira dificuldade de ter a quantia necessária para a compra de 32 ETH. Além disso, ainda há mais duas questões imediatas; há uma certa dificuldade técnica para executar o processo para se tornar um validador e é preciso concordar com filas de saque e de depósitos que não são imediatos.

Para resolver essas 3 questões principais da validação, surgiram diversos protocolos oferencendo como produto tokens que representam uma fração de posição na validação da rede Ethereum ou stake de ETH. Protocolos como a Rocket Pool, Lido, Ether.fi e exchanges como a Coinbase com o cbETH oferecem a capacidade de participar dos rendimentos produzidos através da execução da validação desse grande computador descentralizado que é a rede Ethereum.

Dentre esses tokens, há opções centralizadas como o cbETH, a opções menos descentralizadas como o stETH da Lido e há opções descentralizadas como o rETH da Rocket Pool e o eETH da Ether.fi.

Mas para os amantes da nomenclatura anterior ainda há esperanças. Eu acredito que alguns projetos podem acabar sendo chamados de LSDs no futuro, surgindo uma clara separação entre LSTs e LSDs. Alguns exemplos que corroboram pra essa suposição são tokens como frxETH da Frax Finance e o alETH do protocolo Alchemix. Nesses casos, os protocolos utilizam outras estratégias DeFi para alavancar os rendimentos dos ativos. Sendo assim, não é tão trivial chama-los de Liquid Staking Tokens.

Aliás, o surgimento dos LSTs deve inaugurar uma nova corrida de projetos inovadores e LSDs. Projetos como o HAI da mesma turma da Reflexer que fez o RAI e como o TAI de desenvolvedores anônimos. São exemplos de como a utilização dos LSTs como colateral deve ser uma forte tendencia nos novos produtos DeFi. Outro tipo de inovação que vale ressaltar são protocolos como o Sommelier que trabalham estratégias de liquidez voltadas para os LSTs em diversas exchanges descentralizadas potencializando os ganhos dos detentores desses tokens.

Sexta micro-revolução

NFT20
NFT20

Como já mencionamos no post anterior, o mundo dos NFTs está cada vez mais misturado com o universo DeFi. Uma das grandes tendências para esse próximo ciclo é o surgimento de projetos como NFT20 e NFTX que trabalham conceitos de sintéticos explorando soluções para trazer liquidez e mais acessibilidade a campanhas de NFTs que se valorizaram muito e tornaram a exposição aos direta aos NFTs um privilégio para pouquíssimos. Se você gosta muito desse tema, da uma olhadinha no nosso vídeo sobre NFTs na Era ZK. Há também duas comunidades de especialistas que parecem muito interessantes; o discord do Vinland e o pessoal do mintorskip.com.

Conclusão

Pra finalizar, vale muito utilizar algumas ferramentas como o Defillama. Nela é possível verificar quais os projetos disponíveis em cada blockchain, seja L1 ou L2. Outra ótima funcionalidade é a busca por yields, nessa ferramenta você pode inclusive verificar quais apps DeFi estão entregando o melhor retorno em suas pools de liquidez, vaults, farms e outros produtos.

No geral, lembre-se que o ecossistema cripto gira em torno de dois tokens BTC e ETH. Se você está se metendo em um projeto DeFi para se expor em um token que se desvaloriza constantemente em relação ao ETH e BTC, vale muito a pena refazer as contas e refletir se realmente vale a pena esse esforço e risco. Além de uma boa análise gráfica em relação ao ETH e o BTC no timeframe semanal, ferramentas como o moneyprinter.info também ajudam a ter uma visão sobre a saúde desses projetos.

Se você chegou até aqui, espero que esse material tenha te ajudado a perceber pelo menos superficialmente o quão amplo e repleto de possibilidades é o ecossistema DeFi. Se você ficou ao menos curioso e decidiu dar o primeiro passo na sua própria pesquisa, considero que a minha missão está cumprida. Se tem alguma sugestão de conteúdo ou acha que tem algo nesse texto de pode ser melhorado, deixa um comentário? Vai ajudar bastante a entender onde podemos ajudar mais e o que pode ser melhorado.

Bons Trades! 💚