
Casino Setubalense
English version here. GPS 38.52371953192777, -8.894994756099344 O Casino Setubalense foi inaugurado em 1908. Nesse mesmo ano foi sujeito a obras para poder receber sessões de cinema.O Casino Setubalense na primeira década do século XXA sala era bastante ampla, com capacidade para acolher 800 pessoas. O sucesso foi quase imediato com as sessões a esgotarem em muitas ocasiões. No inicio abria portas para a Rua dos Marmelinhos (actual Rua António Maria Eusébio), mas depois a entrada passou a rea...

Palácio Fryxell
English version here. GPS 38.52325256564484, -8.884779791841462 O edifício faz parte de um conjunto patrimonial que remonta, possivelmente, ao século XVI. Até ao final do séc. XVIII foi morada de importantes instituições religiosas, como o Convento de São Domingos, ou o Colégio dos Jesuítas, do qual resta hoje a Capela de São Francisco Xavier e os claustros, bem como um troço considerável de muralha medieval.Fachada PrincipalO edifício propriamente dito foi adaptado a palácio burguês no séc. ...

Castelo de Palmela - en
Versão portuguesa aqui. GPS 38.56604892045434, -8.900804097993495 The Castelo de Palmela is located in the village, parish and municipality of the same name, district of Setúbal, in Portugal.On the Setúbal peninsula, in the eastern spur of the Arrábida mountain range, it is located between the estuaries of the Tagus and Sado rivers, close to the mouth of the latter. It is part of the so-called Costa Azul, in the Arrábida Natural Park. From the top of its donjon, on clear days the view unfolds...
Apá sôce, atão isto é qué a Blockchain? Borra lá... é só escrrever. "Trranselacion": All gud men!



Casino Setubalense
English version here. GPS 38.52371953192777, -8.894994756099344 O Casino Setubalense foi inaugurado em 1908. Nesse mesmo ano foi sujeito a obras para poder receber sessões de cinema.O Casino Setubalense na primeira década do século XXA sala era bastante ampla, com capacidade para acolher 800 pessoas. O sucesso foi quase imediato com as sessões a esgotarem em muitas ocasiões. No inicio abria portas para a Rua dos Marmelinhos (actual Rua António Maria Eusébio), mas depois a entrada passou a rea...

Palácio Fryxell
English version here. GPS 38.52325256564484, -8.884779791841462 O edifício faz parte de um conjunto patrimonial que remonta, possivelmente, ao século XVI. Até ao final do séc. XVIII foi morada de importantes instituições religiosas, como o Convento de São Domingos, ou o Colégio dos Jesuítas, do qual resta hoje a Capela de São Francisco Xavier e os claustros, bem como um troço considerável de muralha medieval.Fachada PrincipalO edifício propriamente dito foi adaptado a palácio burguês no séc. ...

Castelo de Palmela - en
Versão portuguesa aqui. GPS 38.56604892045434, -8.900804097993495 The Castelo de Palmela is located in the village, parish and municipality of the same name, district of Setúbal, in Portugal.On the Setúbal peninsula, in the eastern spur of the Arrábida mountain range, it is located between the estuaries of the Tagus and Sado rivers, close to the mouth of the latter. It is part of the so-called Costa Azul, in the Arrábida Natural Park. From the top of its donjon, on clear days the view unfolds...
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Assim foram os anos loucos do Seagull, a discoteca mítica de Setúbal
Zé Gatto passava músicas de que ninguém gostava (pelo menos no início), o então jogador do Sporting Carlos Manuel rasgou a roupa só para entrar numa festa e Miguel Sousa Tavares descreveu-a como a discoteca onde nunca sabíamos quem íamos encontrar.
Zé Gatto passava músicas de que ninguém gostava (pelo menos no início), o então jogador do Sporting Carlos Manuel rasgou a roupa só para entrar numa festa e Miguel Sousa Tavares descreveu-a como a discoteca onde nunca sabíamos quem íamos encontrar.
No verão, havia festas temáticas todas as quartas-feiras.
Quando Carlos Manuel, na altura estrela do Sporting e da Seleção Nacional, chegou à discoteca Seagull, o porteiro não o deixou entrar. Estávamos numa quarta-feira de verão, em 1988, portanto era dia de festa temática. Naquela noite em particular o mote era “A festa é o máximo, traga o mínimo”, por isso todos os clientes tinham de ser originais (e poupados) no guarda-roupa. O jogador de futebol não cumpria os requisitos, logo as regras eram claras: ele não podia entrar.
“O Carlos era meu amigo”, recorda àAlfredo Martins, o antigo dono da discoteca mítica no Portinho da Arrábida nas décadas de 80 e 90. “Ele mandou-me chamar e perguntou: ’Então, não me deixam entrar?’. Expliquei-lhe que o tema era traga o mínimo, por isso não podia fazer nada. ‘Então e se eu cortar as calças e a camisa?’.”
Foi exatamente isso que Carlos Manuel fez. Rasgou a camisa, cortou as calças e entrou na discoteca.
“Uma vez Miguel Sousa Tavares escreveu o seguinte sobre o Seagull, num artigo do ‘Expresso’ a propósito das melhores discotecas: ‘uma discoteca que tinha boa música e onde nunca sabíamos o que íamos encontrar’.”
Era de facto este o espírito do Seagull. Entre a Praia de Galápos e a Figueirinha, em plenas escarpas da Serra da Arrábida, o espaço foi comprado por um grupo de amigos em 1978. Mas a sua história é bem mais antiga.
O Seagull começou por ser uma casa de férias de um arquiteto famoso

Arquiteto e artista brilhante, foi o autor dos cartazes nas campanhas publicitárias da TAP (1960), mentor da construção do Hotel Porto Santo, na Madeira, ou da ideia de criar uma piscina flutuante na Praia do Tamariz (1967). Entre 1959 ou 1960, Eduardo Anahory construiu uma casa de férias numa escarpa em Galápos. Chamou-lhe Aiola e durante um longo período foi uma espécie de refúgio romântico de verão para o arquiteto e para a pintora Menez, com quem namorou durante oito anos.
Mas voltemos à época em que já se chamava Seagull e passava música até de madrugada. Quando o grupo de amigos decidiu desfazer-se da discoteca, na altura com uns ainda modestos 70 metros quadrados, Alfredo Martins, 68 anos, não pensou duas vezes antes de ficar com o espaço. Estávamos em 1980.
“Eu tinha um bar, e na altura pensava em abrir uma discoteca. Quando apareceu a oportunidade de comprar o Seagull, não hesitei.”
Alfredo Martins pagou 800 contos pelo espaço, o equivalente hoje a aproximadamente 61 mil euros. Nessa altura começou logo a trabalhar na aprovação da licença para ampliar o espaço, que passaria de 70 para 190 metros quadrados.
“Consegui o feito de estar a trabalhar [nas obras] sem fechar a discoteca”, ri-se Alfredo Martins. Na verdade, e apesar de tecnicamente ser uma ampliação, o novo espaço noturno começou a ser erguido mesmo ao lado do antigo. Estávamos entre 1984 e 1985.
No último sábado fechámos a discoteca antiga para abrir a nova na sexta-feira seguinte. Alguns clientes choravam, diziam que nunca mais iria ser igual. Outros diziam que ia ser melhor. Nessa madrugada, dei aos meus clientes o privilégio de ‘partirem’ a discoteca antiga para estrearmos a nova. Levaram tudo o que quiseram.”
Na sexta-feira seguinte, conforme combinado, inauguraram a nova discoteca. “Reabrimos com duas horas de atraso, mas conseguimos”. Era suposto abrirem à meia-noite, mas um problema na instalação elétrica fazia com que a eletricidade fosse abaixo de cada vez que se ligava o som. Lá resolveram o problema, e às duas da manhã receberam os primeiros clientes.
Em dois dias entravam mais de duas mil pessoas na discoteca
O Seagull começou por ser uma casa de férias de um arquiteto famoso Antes de ser transformado numa discoteca, o edifício construído à beira-mar foi mandado construir por Eduardo Anahory.
Se em dois dias entravam mais de duas mil pessoas na discoteca Após a ampliação, o Seagull ficou com capacidade para apenas 350 pessoas. “Mas púnhamos lá mil e muitas pessoas. Numa sexta-feira e num sábado, entravam na discoteca mais de duas mil pessoas. Não todas ao mesmo tempo, obviamente”.
Nos finais da década de 80, António Patronilho era cliente habitual. Em entrevista, recorda aquela que foi a sua primeira visita ao Seagull.
“Foi no aniversário de uma amiga. Jantámos em Azeitão e seguimos para lá.” Chegaram por volta da meia-noite e meia. Ainda era cedo, portanto, a pista não tinha sido montada e estava a passar música ambiente.
“Lembro-me daquela que penso ter sido a primeira música que ouvi lá. ‘China In Your Hand’, dos T’Pau.”
Depois dessa noite, o setubalense de 47 anos tornou-se cliente frequente do Seagull. Era assim na discoteca mítica da Arrábida — quem ia uma vez depois não queria outra coisa.
“Vinha muita gente de Azeitão, de Sesimbra. Lisboa era a nossa maior fonte de clientes. Bem, mas vinha gente de todo o País — havia até quem viesse dos Açores de propósito”, recorda o antigo dono da discoteca, Alfredo Martins. Também havia muitas caras conhecidas (ou que viriam a tornar-se conhecidas) a frequentar o espaço, como Catarina Furtado. “Também vinham uma série de políticos, mas eram sobretudo artistas.”

As festas temáticas eram uma loucura no verão
Não era preciso uma desculpa para visitar o Seagull, no entanto havia um dia em particular que ninguém queria perder. Entre 1 de julho e 1 de setembro, todas as quartas-feiras eram dedicadas às festas temáticas.

“Nós tínhamos uma festa muito famosa, a festa do cavalo. Nesse dia só podia entrar quem viesse montado num. Imagine o que era entrar na serra da Arrábida e ver cento e tal pessoas a cavalo, vindas de Azeitão. Era incrível.”
De vez em quando, as festas temáticas também davam direito a prémios. Recebiam distinções o homem e a mulher mais bem vestidos da noite, e ganhavam uma escapadinha de fim de semana uma cidade na Europa, como Londres ou Paris.
“Não havia cá festas da espuma. Éramos muito finos.”

Zé Gatto era o DJ rebelde que passava as músicas que ninguém queria ouvir
Zé Gatto (não é um pseudónimo, ele chamava-se mesmo José Gatto) foi DJ no Seagull entre meados da década de 80 e 1996. Não é possível falar no sucesso da discoteca sem referir o seu nome — sim, o Seagull tinha uma localização privilegiada, uma vista incrível e festas maravilhosas, mas durante a noite o que interessava mesmo era a música. Nesse campo, Zé Gatto era o mestre.
“Ele marcou para sempre a geração Seagull”, assegura Alfredo Martins. “Foi contratado por mim. Ainda foi fazer uma experiência ao Algarve [o empresário teve durante um ano uma discoteca em Vilamoura], mas depois viemos para cima para abrir o Seagull.”
“Ele foi a chave para o sucesso daquilo tudo com a música que tentava pôr”, garante o antigo cliente António Patronilho. “Não era fácil. Ao contrário do que acontece hoje, em que os DJ vão atrás do público, ele fazia o oposto. Durante seis meses, as pessoas saíam da pista porque não gostavam da música que ele estava a passar. Mas ele continuava a insistir e as canções acabavam por ser um sucesso.”
Alfredo Martins corrobora a história de António. “Às vezes até me passava da cabeça. Os clientes vinham reclamar, ‘que raio de música é esta’. As pessoas têm esse defeito, não gostam de coisas novas”. No entanto, acabava por funcionar: “Ele era teimoso. E os clientes acabavam por adorar as músicas.”
De dois em dois meses, Alfredo Martins e Zé Gatto iam a Londres comprar canções novas.
“Às vezes eu também ia sozinho, quando ele queria mesmo alguma coisa. Mas isso acontecia mais por causa dos vídeos [em 1985 montaram um ecrã na discoteca]. Havia um videoclipe da Cher [“If I Could Turn Back Time”, 1989] que deixava tudo em transe. Quando [a cantora] se sentava em cima do canhão, a rapaziada entrava em êxtase.”

“Era uma coisa brilhante. A discoteca era fabulosa, mas o restaurante foi algo que me ficou aqui no goto”
Entre 1994 ou 1995, Alfredo Martins ampliou pela segunda vez o Seagull. De 190 metros quadrados passaram para 333, agora com direito a um restaurante no piso térreo. A discoteca passou para o andar superior.
“Era uma coisa brilhante. A discoteca era fabulosa, mas o restaurante foi algo que me ficou aqui no goto. Criou-se um glamour muito interessante na altura. Era só gente gira, sempre gente gira.”
António Patronilho lembra-se bem desses tempos. Na verdade, poucos anos depois foi convidado para trabalhar na discoteca como DJ.
“Na altura estava num bar em Azeitão [1997]. Fui convidado porque a música estava alterada. Estavam a passar mais ‘música de dança’, e chamaram-me para voltar ao estilo pop-rock.”

Era este o verdadeiro espírito da discoteca. A mudança chegou à “Revista Inédita”, que escrevia sobre as maiores discotecas nacionais. Na edição de dezembro de 1997, lia-se: “A casa é a mesma, a localização também e da vista nem falamos pois é de facto única. O Seagull sentiu necessidade de dar uma volta e deu. A música está diferente mas claro dentro dos padrões que aquele espaço obriga de forma a manter-se um sonho.”
“Desolação em Galápagos” ou “O último voo do Seagull”
A 11 de novembro de 1998, a capa do “Setubalense” deixou a região em choque. “Desolação em Galápos”, lia-se em letras garrafais na primeira página do jornal, onde vinha também uma imagem desoladora do edifício completamente destruído. Lá dentro, o artigo sobre o último voo do Seagull relatava o que tinha acontecido na manhã do dia anterior. Uma fuga de gás originou uma explosão e consequente incêndio, que deixaram o Seagull “reduzida a uma amálgama de ferro e chapas retorcidas, no meio de muito fumo que se erguia dos destroços (…)”.
Às 8 horas de segunda-feira, 10 de novembro de 1998, o gerente Pedro Silva abriu a porta do Seagull. A discoteca estava fechada desde sábado, o restaurante ainda serviu refeições no domingo.
“Quando o meu gerente carregou no interruptor da luz, o gás já estava infiltrado na canalização e ele foi sacudido para a estrada”, recorda Alfredo Martins. Apesar do impacto da explosão, que o arrastou durante três ou quatro metros, Pedro Silva foi para o Hospital Distrital de Setúbal pelos seus próprios meios.
“Ele ficou sem uma rugazinha”, recorda o antigo proprietário do Seagull. Na altura o gerente de 35 anos ficou com queimaduras de primeiro e segundo graus que, felizmente, não deixaram marcas visíveis.
Ninguém queria acreditar no que tinha acontecido. “Setubalense” descreve os olhares atónitos dos funcionários e frequentadores da discoteca, “que olhavam para o que restava do edifício, parecendo não acreditar no que estava à vista: o Seagull tinha ardido”.
O incêndio ficou controlado pelos bombeiros às 9h29, aproximadamente uma hora e meia depois da explosão. Infelizmente, e por mais que Alfredo Martins tivesse tentado contrariar isso, a sentença tinha sido ditada. Era o fim do Seagull.
António Patronilho estava nos EUA na noite em que a discoteca ardeu. Recebeu a notícia por um colega. “A mulher telefonou-lhe e disse que aquilo estava a arder.” Tantos anos depois, o setubalense ainda tem uma T-shirt preta onde se lê: “Seagull, 1978-1998 — anos dourados”.
Alfredo Martins nunca desistiu de reabrir o Seagull
“O que me dava um orgulho enorme e uma vontade enorme de manter aquela casa era a alegria dos clientes. Era uma convivência muito interessante, muito transparente.”
Após a explosão, a reconstrução do Seagull foi bloqueada pelas autoridades. “Era um direito básico legítimo, mas todas as entidades se opuseram: o Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade, Proteção Civil, até a Câmara Municipal de Setúbal. É quase anedótico.”
“As entidades alegavam que o objeto da licença já não existia. Havia muito medo daquela zona, que caíssem pedras pela serra. Nunca caiu nenhuma, mas enfim. Andei tantos anos a lutar por isto. Não faz sentido.”
Quase 20 anos depois do incêndio, ainda é visível a desilusão na voz de Alfredo Martins. Na realidade, foi apenas em 2013 que se viu obrigado a dar por vencido. Foi nessa altura que terminou o processo em tribunal.
“Na primeira instância eu ganhei, na relação eu ganhei, no supremo tribunal administrativo perdi. Era uma coisa raríssima — quando os dois anteriores são favoráveis, o tribunal administrativo raramente vai contra essa decisão. Calhou-me a mim a fava. A mim e aos meus clientes.”
Todos os anos há uma festa de homenagem ao Seagull
Desde 2008 que se realizam festas anuais em memória da mítica discoteca. O dia depende das condições meteorológicas e dos festivais de música, mas de um modo geral acontece entre a última semana de maio e a primeira de junho. As últimas duas edições aconteceram no Parque Urbano de Albarquel, em Setúbal.
O evento é um sucesso, e todos os anos tem juntado entre duas mil a 2.500 pessoas. Das 11 às 6 da manhã, os antigos clientes da discoteca — alguns já com filhos em idade de se juntarem à festa —, dançam aos som dos hits que passavam no Seagull.


Hoje, a discoteca Seagull está reduzida a uma plataforma.

“Às 8 horas de segunda-feira, 10 de novembro de 1998, o gerente Pedro Silva abriu a porta da discoteca Seagull. A discoteca estava fechada desde sábado, o restaurante ainda serviu refeições no domingo. Quando carregou no interruptor da luz, houve uma enorme explosão. Mais tarde saber-se-ia que se tinha tratado de uma fuga de gás. Apesar de ter sido arrastado por três ou quatro metros, Pedro Silva não ficou com marcas visíveis.”
As duas páginas do jornal foram divulgadas pelo jornal “Setubalense” na edição de 18 de novembro de 2015.
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Assim foram os anos loucos do Seagull, a discoteca mítica de Setúbal
Zé Gatto passava músicas de que ninguém gostava (pelo menos no início), o então jogador do Sporting Carlos Manuel rasgou a roupa só para entrar numa festa e Miguel Sousa Tavares descreveu-a como a discoteca onde nunca sabíamos quem íamos encontrar.
Zé Gatto passava músicas de que ninguém gostava (pelo menos no início), o então jogador do Sporting Carlos Manuel rasgou a roupa só para entrar numa festa e Miguel Sousa Tavares descreveu-a como a discoteca onde nunca sabíamos quem íamos encontrar.
No verão, havia festas temáticas todas as quartas-feiras.
Quando Carlos Manuel, na altura estrela do Sporting e da Seleção Nacional, chegou à discoteca Seagull, o porteiro não o deixou entrar. Estávamos numa quarta-feira de verão, em 1988, portanto era dia de festa temática. Naquela noite em particular o mote era “A festa é o máximo, traga o mínimo”, por isso todos os clientes tinham de ser originais (e poupados) no guarda-roupa. O jogador de futebol não cumpria os requisitos, logo as regras eram claras: ele não podia entrar.
“O Carlos era meu amigo”, recorda àAlfredo Martins, o antigo dono da discoteca mítica no Portinho da Arrábida nas décadas de 80 e 90. “Ele mandou-me chamar e perguntou: ’Então, não me deixam entrar?’. Expliquei-lhe que o tema era traga o mínimo, por isso não podia fazer nada. ‘Então e se eu cortar as calças e a camisa?’.”
Foi exatamente isso que Carlos Manuel fez. Rasgou a camisa, cortou as calças e entrou na discoteca.
“Uma vez Miguel Sousa Tavares escreveu o seguinte sobre o Seagull, num artigo do ‘Expresso’ a propósito das melhores discotecas: ‘uma discoteca que tinha boa música e onde nunca sabíamos o que íamos encontrar’.”
Era de facto este o espírito do Seagull. Entre a Praia de Galápos e a Figueirinha, em plenas escarpas da Serra da Arrábida, o espaço foi comprado por um grupo de amigos em 1978. Mas a sua história é bem mais antiga.
O Seagull começou por ser uma casa de férias de um arquiteto famoso

Arquiteto e artista brilhante, foi o autor dos cartazes nas campanhas publicitárias da TAP (1960), mentor da construção do Hotel Porto Santo, na Madeira, ou da ideia de criar uma piscina flutuante na Praia do Tamariz (1967). Entre 1959 ou 1960, Eduardo Anahory construiu uma casa de férias numa escarpa em Galápos. Chamou-lhe Aiola e durante um longo período foi uma espécie de refúgio romântico de verão para o arquiteto e para a pintora Menez, com quem namorou durante oito anos.
Mas voltemos à época em que já se chamava Seagull e passava música até de madrugada. Quando o grupo de amigos decidiu desfazer-se da discoteca, na altura com uns ainda modestos 70 metros quadrados, Alfredo Martins, 68 anos, não pensou duas vezes antes de ficar com o espaço. Estávamos em 1980.
“Eu tinha um bar, e na altura pensava em abrir uma discoteca. Quando apareceu a oportunidade de comprar o Seagull, não hesitei.”
Alfredo Martins pagou 800 contos pelo espaço, o equivalente hoje a aproximadamente 61 mil euros. Nessa altura começou logo a trabalhar na aprovação da licença para ampliar o espaço, que passaria de 70 para 190 metros quadrados.
“Consegui o feito de estar a trabalhar [nas obras] sem fechar a discoteca”, ri-se Alfredo Martins. Na verdade, e apesar de tecnicamente ser uma ampliação, o novo espaço noturno começou a ser erguido mesmo ao lado do antigo. Estávamos entre 1984 e 1985.
No último sábado fechámos a discoteca antiga para abrir a nova na sexta-feira seguinte. Alguns clientes choravam, diziam que nunca mais iria ser igual. Outros diziam que ia ser melhor. Nessa madrugada, dei aos meus clientes o privilégio de ‘partirem’ a discoteca antiga para estrearmos a nova. Levaram tudo o que quiseram.”
Na sexta-feira seguinte, conforme combinado, inauguraram a nova discoteca. “Reabrimos com duas horas de atraso, mas conseguimos”. Era suposto abrirem à meia-noite, mas um problema na instalação elétrica fazia com que a eletricidade fosse abaixo de cada vez que se ligava o som. Lá resolveram o problema, e às duas da manhã receberam os primeiros clientes.
Em dois dias entravam mais de duas mil pessoas na discoteca
O Seagull começou por ser uma casa de férias de um arquiteto famoso Antes de ser transformado numa discoteca, o edifício construído à beira-mar foi mandado construir por Eduardo Anahory.
Se em dois dias entravam mais de duas mil pessoas na discoteca Após a ampliação, o Seagull ficou com capacidade para apenas 350 pessoas. “Mas púnhamos lá mil e muitas pessoas. Numa sexta-feira e num sábado, entravam na discoteca mais de duas mil pessoas. Não todas ao mesmo tempo, obviamente”.
Nos finais da década de 80, António Patronilho era cliente habitual. Em entrevista, recorda aquela que foi a sua primeira visita ao Seagull.
“Foi no aniversário de uma amiga. Jantámos em Azeitão e seguimos para lá.” Chegaram por volta da meia-noite e meia. Ainda era cedo, portanto, a pista não tinha sido montada e estava a passar música ambiente.
“Lembro-me daquela que penso ter sido a primeira música que ouvi lá. ‘China In Your Hand’, dos T’Pau.”
Depois dessa noite, o setubalense de 47 anos tornou-se cliente frequente do Seagull. Era assim na discoteca mítica da Arrábida — quem ia uma vez depois não queria outra coisa.
“Vinha muita gente de Azeitão, de Sesimbra. Lisboa era a nossa maior fonte de clientes. Bem, mas vinha gente de todo o País — havia até quem viesse dos Açores de propósito”, recorda o antigo dono da discoteca, Alfredo Martins. Também havia muitas caras conhecidas (ou que viriam a tornar-se conhecidas) a frequentar o espaço, como Catarina Furtado. “Também vinham uma série de políticos, mas eram sobretudo artistas.”

As festas temáticas eram uma loucura no verão
Não era preciso uma desculpa para visitar o Seagull, no entanto havia um dia em particular que ninguém queria perder. Entre 1 de julho e 1 de setembro, todas as quartas-feiras eram dedicadas às festas temáticas.

“Nós tínhamos uma festa muito famosa, a festa do cavalo. Nesse dia só podia entrar quem viesse montado num. Imagine o que era entrar na serra da Arrábida e ver cento e tal pessoas a cavalo, vindas de Azeitão. Era incrível.”
De vez em quando, as festas temáticas também davam direito a prémios. Recebiam distinções o homem e a mulher mais bem vestidos da noite, e ganhavam uma escapadinha de fim de semana uma cidade na Europa, como Londres ou Paris.
“Não havia cá festas da espuma. Éramos muito finos.”

Zé Gatto era o DJ rebelde que passava as músicas que ninguém queria ouvir
Zé Gatto (não é um pseudónimo, ele chamava-se mesmo José Gatto) foi DJ no Seagull entre meados da década de 80 e 1996. Não é possível falar no sucesso da discoteca sem referir o seu nome — sim, o Seagull tinha uma localização privilegiada, uma vista incrível e festas maravilhosas, mas durante a noite o que interessava mesmo era a música. Nesse campo, Zé Gatto era o mestre.
“Ele marcou para sempre a geração Seagull”, assegura Alfredo Martins. “Foi contratado por mim. Ainda foi fazer uma experiência ao Algarve [o empresário teve durante um ano uma discoteca em Vilamoura], mas depois viemos para cima para abrir o Seagull.”
“Ele foi a chave para o sucesso daquilo tudo com a música que tentava pôr”, garante o antigo cliente António Patronilho. “Não era fácil. Ao contrário do que acontece hoje, em que os DJ vão atrás do público, ele fazia o oposto. Durante seis meses, as pessoas saíam da pista porque não gostavam da música que ele estava a passar. Mas ele continuava a insistir e as canções acabavam por ser um sucesso.”
Alfredo Martins corrobora a história de António. “Às vezes até me passava da cabeça. Os clientes vinham reclamar, ‘que raio de música é esta’. As pessoas têm esse defeito, não gostam de coisas novas”. No entanto, acabava por funcionar: “Ele era teimoso. E os clientes acabavam por adorar as músicas.”
De dois em dois meses, Alfredo Martins e Zé Gatto iam a Londres comprar canções novas.
“Às vezes eu também ia sozinho, quando ele queria mesmo alguma coisa. Mas isso acontecia mais por causa dos vídeos [em 1985 montaram um ecrã na discoteca]. Havia um videoclipe da Cher [“If I Could Turn Back Time”, 1989] que deixava tudo em transe. Quando [a cantora] se sentava em cima do canhão, a rapaziada entrava em êxtase.”

“Era uma coisa brilhante. A discoteca era fabulosa, mas o restaurante foi algo que me ficou aqui no goto”
Entre 1994 ou 1995, Alfredo Martins ampliou pela segunda vez o Seagull. De 190 metros quadrados passaram para 333, agora com direito a um restaurante no piso térreo. A discoteca passou para o andar superior.
“Era uma coisa brilhante. A discoteca era fabulosa, mas o restaurante foi algo que me ficou aqui no goto. Criou-se um glamour muito interessante na altura. Era só gente gira, sempre gente gira.”
António Patronilho lembra-se bem desses tempos. Na verdade, poucos anos depois foi convidado para trabalhar na discoteca como DJ.
“Na altura estava num bar em Azeitão [1997]. Fui convidado porque a música estava alterada. Estavam a passar mais ‘música de dança’, e chamaram-me para voltar ao estilo pop-rock.”

Era este o verdadeiro espírito da discoteca. A mudança chegou à “Revista Inédita”, que escrevia sobre as maiores discotecas nacionais. Na edição de dezembro de 1997, lia-se: “A casa é a mesma, a localização também e da vista nem falamos pois é de facto única. O Seagull sentiu necessidade de dar uma volta e deu. A música está diferente mas claro dentro dos padrões que aquele espaço obriga de forma a manter-se um sonho.”
“Desolação em Galápagos” ou “O último voo do Seagull”
A 11 de novembro de 1998, a capa do “Setubalense” deixou a região em choque. “Desolação em Galápos”, lia-se em letras garrafais na primeira página do jornal, onde vinha também uma imagem desoladora do edifício completamente destruído. Lá dentro, o artigo sobre o último voo do Seagull relatava o que tinha acontecido na manhã do dia anterior. Uma fuga de gás originou uma explosão e consequente incêndio, que deixaram o Seagull “reduzida a uma amálgama de ferro e chapas retorcidas, no meio de muito fumo que se erguia dos destroços (…)”.
Às 8 horas de segunda-feira, 10 de novembro de 1998, o gerente Pedro Silva abriu a porta do Seagull. A discoteca estava fechada desde sábado, o restaurante ainda serviu refeições no domingo.
“Quando o meu gerente carregou no interruptor da luz, o gás já estava infiltrado na canalização e ele foi sacudido para a estrada”, recorda Alfredo Martins. Apesar do impacto da explosão, que o arrastou durante três ou quatro metros, Pedro Silva foi para o Hospital Distrital de Setúbal pelos seus próprios meios.
“Ele ficou sem uma rugazinha”, recorda o antigo proprietário do Seagull. Na altura o gerente de 35 anos ficou com queimaduras de primeiro e segundo graus que, felizmente, não deixaram marcas visíveis.
Ninguém queria acreditar no que tinha acontecido. “Setubalense” descreve os olhares atónitos dos funcionários e frequentadores da discoteca, “que olhavam para o que restava do edifício, parecendo não acreditar no que estava à vista: o Seagull tinha ardido”.
O incêndio ficou controlado pelos bombeiros às 9h29, aproximadamente uma hora e meia depois da explosão. Infelizmente, e por mais que Alfredo Martins tivesse tentado contrariar isso, a sentença tinha sido ditada. Era o fim do Seagull.
António Patronilho estava nos EUA na noite em que a discoteca ardeu. Recebeu a notícia por um colega. “A mulher telefonou-lhe e disse que aquilo estava a arder.” Tantos anos depois, o setubalense ainda tem uma T-shirt preta onde se lê: “Seagull, 1978-1998 — anos dourados”.
Alfredo Martins nunca desistiu de reabrir o Seagull
“O que me dava um orgulho enorme e uma vontade enorme de manter aquela casa era a alegria dos clientes. Era uma convivência muito interessante, muito transparente.”
Após a explosão, a reconstrução do Seagull foi bloqueada pelas autoridades. “Era um direito básico legítimo, mas todas as entidades se opuseram: o Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade, Proteção Civil, até a Câmara Municipal de Setúbal. É quase anedótico.”
“As entidades alegavam que o objeto da licença já não existia. Havia muito medo daquela zona, que caíssem pedras pela serra. Nunca caiu nenhuma, mas enfim. Andei tantos anos a lutar por isto. Não faz sentido.”
Quase 20 anos depois do incêndio, ainda é visível a desilusão na voz de Alfredo Martins. Na realidade, foi apenas em 2013 que se viu obrigado a dar por vencido. Foi nessa altura que terminou o processo em tribunal.
“Na primeira instância eu ganhei, na relação eu ganhei, no supremo tribunal administrativo perdi. Era uma coisa raríssima — quando os dois anteriores são favoráveis, o tribunal administrativo raramente vai contra essa decisão. Calhou-me a mim a fava. A mim e aos meus clientes.”
Todos os anos há uma festa de homenagem ao Seagull
Desde 2008 que se realizam festas anuais em memória da mítica discoteca. O dia depende das condições meteorológicas e dos festivais de música, mas de um modo geral acontece entre a última semana de maio e a primeira de junho. As últimas duas edições aconteceram no Parque Urbano de Albarquel, em Setúbal.
O evento é um sucesso, e todos os anos tem juntado entre duas mil a 2.500 pessoas. Das 11 às 6 da manhã, os antigos clientes da discoteca — alguns já com filhos em idade de se juntarem à festa —, dançam aos som dos hits que passavam no Seagull.


Hoje, a discoteca Seagull está reduzida a uma plataforma.

“Às 8 horas de segunda-feira, 10 de novembro de 1998, o gerente Pedro Silva abriu a porta da discoteca Seagull. A discoteca estava fechada desde sábado, o restaurante ainda serviu refeições no domingo. Quando carregou no interruptor da luz, houve uma enorme explosão. Mais tarde saber-se-ia que se tinha tratado de uma fuga de gás. Apesar de ter sido arrastado por três ou quatro metros, Pedro Silva não ficou com marcas visíveis.”
As duas páginas do jornal foram divulgadas pelo jornal “Setubalense” na edição de 18 de novembro de 2015.
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