Os ratos estão historicamente associados à traição, à sujidade, à cobardia e ao oportunismo. Os nazis compararam os judeus a ratos com o objetivo de os desumanizar e, dessa forma, justificar o Holocausto. Hoje, em sentido inverso, os judeus do Médio Oriente fazem o mesmo em relação ao povo árabe da Judeia. Este pequeno e indefeso animal é frequentemente usado pelo ser humano para exprimir o seu descontentamento pela realidade.
Mas o que é isso de se ser um Rato?
A metáfora sociológica da "ratização" está também associada à redução do comportamento humano a instintos básicos de sobrevivência, à competição feroz e ao consumismo. Por exemplo, hoje em dia as pessoas trabalham mais do que os seus antepassados pela busca de uma liberdade que nunca chega. Ao longo de gerações, o ser humano tem-se tornado escravo do trabalho, sem que isso se tenha traduzido, de facto, em melhorias do seu modo vida. É uma corrida de ratos em busca de riqueza, de mais tempo e de mais liberdade, mas que, na realidade, produz o efeito inverso. Serve apenas para pagar dívidas, aumentar o consumo e manter as pessoas presas num ciclo interminável, sem tempo para o desenvolvimento pessoal, para o lazer e para a família. Uma bola de neve. Um ciclo interminável de mais trabalho e menos tempo para si.
Vive-se cada vez mais numa lógica de "cada um por si". Sob forte pressão, a empatia foi substituída pelo instinto de sobrevivência, o curto prazo tornou-se a derradeira conquista e o próximo a ser visto como um alvo a abater. Perdeu-se o pensamento crítico. As pessoas passaram a agir cada vez mais por reflexos condicionados por algoritmos, pela publicidade e pelo medo da exclusão social. Como ratos, movemo-nos cada vez mais pelo instinto.
O perfil de rato encaixa que nem uma luva no candidato derrotado a presidente da república do Brasil. Ainda não tinham passado 48h do apuramento dos resultados e já Flávio Bolsonaro tinha abandonado o país, como um rato que abandona um navio em chamas. Ainda não é certo quais foram as verdadeiras razões para a fuga, se fugiu dos apoiantes ou dos opositores, mas é seguro dizer-se que fugiu por medo (como um rato). Fugiu do país e da responsabilidade para com milhões de eleitores que confiaram em si. Pobres ratos deixados à sua mercê.

O medo também tomou conta dos mercados brasileiros. A reeleição de Lula da Silva teve como consequência imediata a queda de grande parte das cotadas brasileiras. No caso do EWZ (iShares MSCI Brazil ETF) não se pode ser que tenha sido inesperado. É certo que caiu, mas caiu para uma zona onde tem passado grande parte do tempo. Uma boa oportunidade para quem está de olho nesse mercado.
Afinal de contas, tudo o que podia correr mal ao longo deste ano já aconteceu e nós ainda estamos aqui. Senão, vejamos:
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Guerra Israel-Americana com o Irão
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Crise na Venezuela
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Inflação alta
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Maledicência quântica
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Hacks em exchanges
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Hacks em protocolos de DeFi
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Hacks nas hardware wallets
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O chumbo do Clarity Act
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Manifestações em grande parte da Europa
O perigo é real, mas o medo não existe. É uma construção da nossa imaginação.
Mas, e por falar em gatunos

A Binance foi vítima do maior roubo de criptoativos da história. Foram precisos apenas 20 minutos para transferir mais de 6 mil milhões de dólares para carteiras de piratas informáticos da Coreia do Norte, de acordo com a própria Binance.

Não me vou alongar nos detalhes da operação, já explicados - e bem - nos meios de comunicação portugueses. Interessa-me sobretudo o que acontece depois destes roubos: a identificação dos responsáveis, a recuperação dos fundos e a sua responsabilização do ponto de vista legal.
Porque é que ninguém vai preso? Em tanto roubo que há em cripto, em tanto exploit, um após outro, não há como não perguntar isto.
Contam-se pelos dedos de uma mão os casos em que foi possível encontrar os responsáveis dos roubos que já somam dezenas de milhares de milhões de dólares.
Lembro-me de três: Ilya Lichtenstein e Mark Karpelès nos casos da Bitfinex e da Mt. Gox, respetivamente e de um grupo de três acusados, num caso associado ao roubo de 400 milhões de dólares da FTX.
O primeiro ainda hoje é questionável, considerando a forma surrealista como Ilya levava a sua vida e a dúvida sobre se teria conhecimentos técnicos para realizar um ataque daquele género à Bitfinex e no segundo, Karlepés, não foi considerado responsável pelo roubo, mas, antes, por ter falsificado registos da própria exchange (Mt. Gox). Os casos da Bitfinex e da Mt. Gox também são dos poucos em que foi possível recuperar alguma coisa. No primeiro, as autoridades conseguiram apreender uma boa parte dos fundos e no segundo, de um total de 850 mil BTC roubados, foi encontrada, sem querer, uma carteira com 200 mil BTC, que se julgava estar vazia e que escapou até aos olhos dos próprios atacantes. Não fosse trágico, dava para rir.
Na esmagadora maioria dos casos em que se recupera alguma coisa, isso acontece por negociação com os ladrões, convencendo-os a devolver os fundos a troco de um perdão extrajudicial, ou porque são tomadas medidas tecnológicas para mitigar e recuperar os fundos.
O facto de raramente se conseguir chegar aos responsáveis é preocupante. É tanto mais grave se se tiver em consideração que geralmente os acusados, e condenados, por práticas ilegais nesta indústria não o são por roubo ou por crimes de acesso ilegítimo. São-no por fraude, por ganância ou por burla. Nos casos mais graves são condenados por ingenuidade. Sim, há gente presa por estupidez. Foram inconscientes ou incapazes de conceber sistemas com a capacidade de resistir a cenários de extrema pressão.
Vivemos num mundo em que foi possível prender Do Kwon da Luna, Sam Bankman-Fried da FTX e até Roman Storm da Tornado Cash porque davam a cara, mas ninguém consegue encontrar os responsáveis pelos roubos de milhares de milhões de dólares lavados através da mesma Binance, que esta semana viu escapar entre as mãos uma enorme quantia de dinheiro. Talvez porque não seja essa a intenção. Talvez porque sim, ou talvez porque não.

Neste círculo não há um post mortem que não informe que foram acionados meios legais para identificar e encontrar os responsáveis. A ironia, como em quase tudo na vida, é que o tempo passa, o assunto é esquecido, os fundos são branqueados e os responsáveis nunca são identificados. E se os responsáveis forem, na verdade, aqueles que dizem estar a trabalhar para nos proteger? E se os culpados forem, na realidade, aqueles dizem serem vítimas?
Curtas
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Dona da Kraken quer ser a primeira entidade licenciada pela CFTC a lançar mercados HIP-3 através da Hyperliquid: já aqui falei por diversas vezes do interesse da SEC em facilitar as regras de modo a permitir a negociação de contratos perpétuos por norte-americanos. A Payward, a empresa por trás da Kraken anunciou esta semana que quer ser a primeira entidade a fazê-lo.
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Ripple USD lançado oficialmente em Base: A stablecoin RLUSD passou por um período testes durante os meses de Agosto de e Setembro e está finalmente disponível para poder ser usada a partir de agora.
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Oku Trade adiciona ferramenta que facilita claims na CCTP Bridge: por vezes, pode acontecer que, ao se usar a bridge CCTP (Circle USDC), os fundos não cheguem automaticamente à carteira de destino. Pode acontecer por inúmeras razões, mas a mais frequente são alterações repentinas no custo das transações. Quando isso acontece, é necessário fazer claim manualmente dos fundos. A Circle disponibiliza APIs para isso através da plataforma CCTP, mas não existem muitos frontends que suportem essa funcionalidade. A pensar nisso, a Oku Trade disponibilizou uma ferramenta que permite que qualquer um consiga resgatar facilmente os seus fundos que ficaram presos na bridge.
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Tether e Circle bloqueiam fundos do hack à Binance: se for para salvar a pele vale tudo.
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Aave mantem alguns mercados em "pausa" na sequência do roubo na Binance: nalguns mercados ainda não é possível pedir novos empréstimos, uma vez que há exposição aos fundos envolvidos no hack à Binance. Recomendo este post do Marc Zeller, onde se explica o sucedido.
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Onchain RWAs com crescimento de 4x em 2 anos: o setor é liderado principalmente por dívida pública.

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Debank/Rabby vão deixar de monitorizar a MegaETH: o baixa adoção da rede pode estar relacionada com este desinvestimento.
Uma boa memória
Neste dia, há 32 anos atrás, era lançado o álbum MTV Unplugged in New York de Nirvana. É considerada uma das melhores performances de sempre do género. A sua gravação aconteceu sem takes, sem interrupções, um ano antes, a 18 de novembro de 1993 e o álbum foi lançado 7 meses após a morte de Kurt Cobain.
Hard Fork Café
Como de costume, o Hard Fork Café regressa aos sábados à noite para duas ou três horas de edição ao vivo, onde de forma descontraída e sem grandes filtros se fala destes temas a par de outros que entram sempre na corrente da discussão.
Por hoje é tudo! Espero que tenham achado este post interessante e que tenha ajudado para uma melhor compreensão do que se passa em cripto e DeFi. Os vossos comentários são valiosos, por isso não se sintam impedidos de os fazer. Voltamos a encontrar-nos para a semana.